ESPAÇO ABERTO - Esquerda e direita no Governo Lula
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de outubro de 2004
José Carlos Martines Belieiro Júnior 
Nas eleições municipais deste ano, o PT saiu-se novamente vitorioso, aumentado em mais de 200% os postos de poder nos municípios quando comparado ao pleito de 2000, consolidando definitivamente um grande eleitorado de esquerda no Brasil. No entanto, quando se observa a experiência petista no governo federal nesses últimos dois anos, é preciso moderar a afirmação que se trata simplesmente de um governo de esquerda.
É sabido que as clivagens ideológicas entre esquerda e direita estão se pulverizando, tornando o campo político menos polarizado. O filósofo político italiano Norberto Bobbio, escreveu um livro chamado ''Esquerda e Direita: razões e significados de uma distinção política'', publicado no Brasil em 1995, discutindo esse tema. Para ele, o critério aceitável para a distinção entre as duas forças políticas, é a questão da desigualdade social. Enquanto a direita aceita as desigualdades sociais como resultado exclusivo da desigualdades naturais entre os indivíduos, a esquerda por outro lado, enxerga a desigualdade social como produto de uma ordem social estruturada desigual.
Daí que para a esquerda, as políticas sociais são fundamentais para corrigir os efeitos da desigualdade, enquanto que para a direita, a única solução é deixar os indivíduos concorrendo livremente pelos recursos e oportunidades escassas na sociedade.
Com a crise do projeto socialista em 1989, a solução da desigualdade social tornou-se a principal bandeira política da esquerda. Quero argumentar que tanto a direita como a esquerda estão presentes na orientação ideológica do governo petista. Explico: na política externa, a valorização da América Latina, a aproximação com os países pobres e a postura crítica com os EUA, são políticas históricas da esquerda, área em que o Governo Lula tem se saído muito bem. A introdução das cotas raciais revela a preocupação do governo com inclusão social, também uma forte demanda do ideário da esquerda. Nessa área, embora com resultados modestos, já produziu numa mobilização que atingiu todo o país.
No entanto, a política econômica que vem sendo praticada desde o primeiro dia de governo, segue o modelo de teorias econômicas da direita conservadora. Política que tem promovido uma severa restrição orçamentária e fiscal que paralisa as políticas públicas do governo do PT. E nas políticas sociais, que deveriam se concentrar os maiores esforços, não há ainda avanços significativos, seja nos resultados, seja no modelo das políticas. Iniciativas governamentais relevantes na área na educação, ou da infra-estrutura, estão condicionadas à aprovação da linha seguida pela política econômica.
A questão é que o lado direita do governo petista é preponderante, e pode inviabilizar o projeto da esquerda de tornar a sociedade brasileira mais justa e igualitária.
JOSÉ CARLOS MARTINES BELIEIRO JÚNIOR é professor de Ciência Política na Universidade Estadual de Londrina


