ESPAÇO ABERTO - Escola, educação e indisciplina
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de setembro de 2003
Valdir da Silva 
Venho ocupar este espaço para prestar esclarecimentos sobre matéria ''Ao mestre sem carinho'', veiculada na Folha de Londrina em 31/8, e principalmente sobre considerações publicadas posteriormente sobre o referido tema.
A matéria editada refletiu análise dentro de um contexto sobre Concepção de Educação e especificamente abordando questões como a indisciplina, e que não sendo publicado em íntegra, possibilitou interpretações equivocadas a quem interessou. Em nenhum momento afirmo que o problema da indisciplina ou violência seja apenas de responsabilidade (e não culpa) da escola, mas que ela também é co-responsável. É preciso distinguir indisciplina de situações de violência. Atitudes e comportamentos são pautados por valores constituídos no contexto das relações sociais estabelecidas. Portanto, conduta inadequada e violência não é privilégio da escola.
Neste sentido, como preconiza o Estatudo da Criança e do Adolescente (ECA), que infelizmente sofre muita rejeição, por desinformação, é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos da criança e do adolescente.
Assim sendo, devemos assumir a responsabilidade que é de cada um de nós. A escola pública deve contribuir no processo de transformação da realidade social. Para isso se faz necessário também estabelecer normas de gestão democrática que possam garantir a participação da comunidade escolar e local na definição dos rumos da escola. Estar atentos se os alunos estão sendo educados e se educando para o exercício da cidadania, aprendendo a ter opinião, respeito, responsabilidade e cumprindo com seus deveres não é tarefa apenas da escola. Normas disciplinares e sanções, por exemplo, podem ser definidas a partir do envolvimento de todos na escola.
Aos pais também é exigido o cumprimento dos deveres inerentes ao pátrio poder. O que não podemos é atribuir a responsabilidade da indisciplina e a violência, num simples raciocínio, exclusivamente ao aluno e apontar a atitude repressiva e punitiva como sendo a única indicadora de resultado, sem antes ter se preocupado com a prevenção.
É lamentável que alguns sequer compreenderam a análise de que o professor não deve ter atitude de enfrentar e responder da mesma forma uma agressão sofrida, o que não impede de tomar as devidas providências, e que a indisciplina é um problema que a escola pode buscar alternativas e esgotar suas possibilidades. Muito me estranha não ter havido crítica em relação à posição de defesa sobre a autonomia que a escola deveria ter em poder expulsar o aluno, apresentada na mesma matéria por representante das escolas e também percebida na prática da transferência compulsória de algumas escolas.
Gostaria que aqueles professores que se preocuparam com tais críticas também se preocupassem com questões a respeito das concepções e práticas pedagógicas, da democracia participativa ou ainda de outras questões de relevância social pertinentes.
Quanto a colocar em dúvida minha atuação profissional, com referência a princípios éticos e morais, aqueles que me conhecem e que sabem do meu envolvimento, participação e compromisso, de quase vinte anos, com as questões sociais, podem dar testemunho sobre minhas convicções, inclusive na defesa do ensino público. Me coloco à disposição para o debate, inclusive com o retorno à escola, que por falta de informação, também fui acusado de nunca ter estado lá. Por fim, acredito na urgente necessidade de envolvimento de todos no debate e aprofundamento sobre o sistema de ensino.
VALDIR DA SILVA é conselheiro tutelar em Londrina


