ESPAÇO ABERTO - Ensino deformado, falido, sem modelo de educação
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sexta-feira, 03 de outubro de 2003
Donato Parisotto 
Preparava-me para escrever sobre o assunto em epígrafe quando chegou-me às mãos através da Folha de Londrina a reportagem com o emérito educador Vitor Henrique Paro (Reportagem Especial, 31 de agosto). Paro que afirma ''... que não basta dizer, repetir e outro dizer para que ocorra aprendizado. E esse é um ponto que comprova a falha no sistema educacional''. Em outro passo: ''Se para aprender precisa ser sujeito, para ensinar como não ensino sem a concordância do outro, tenho de propiciar condições para que ele seja sujeito''.
Daí, afirmação do eminente educador Paulo Freire:... ''o professor deve falar com (participação) e não falar para (assembléia)'' o que ocorre no ensino brasileiro. João Dewey afirma também ''se ninguém comprou, você não vendeu''.
Esta é outra trágica realidade, devido a outros fatores também importantes, sobretudo nas escolas particulares, mais responsáveis, por ser o ensino pago, com mercantilismo, em que o comércio entra pela porta, a ciência, a educação, a cultura, o ensino saem pela janela.
Basta ver os aspectos: salas de aula com 150 alunos, comércio absurdo, preocupação com programas, vestibular, avaliação através de alternativas mal elaboradas e, até erradas, com uma, nenhuma das alternativas, absurdo, laboratórios e bibliotecas só de passeio dos alunos, no primeiro dia de aula, sem orientação de técnicas, para a efetiva prática da teoria, dada em aula, ficando meia ciência, professores com salários ridículos, explorados pelos próprios colegas, na maioria das vezes empresários, dono dos cursinhos que têm a cabeça no princípio exclusivo do capitalismo, ateu e materialista (ação, produção, lucro, ter e não ser), três a quatro avaliações, no mesmo período, num tempo atabalhoado e exíguo, nivelamento de criança, pré-adolescente, adolescente e adulto, sem diálogo: o método é o medieval magister dixit - o mestre disse, vendeu, falou para, se o aluno não assimilou é burro, distraído, desatencioso, indolente, passivo..., não reconheceu a direção e a coordenação, falta motivá-lo, que ele não é uma coisa qualquer ali e que está num ambiente de ensino, de cultura e de educação.
A solução séria e honesta para este precário ensino, com preocupação extrema, é apresentada por Régis de Morais em o precioso livro: ''O que é ensinar''. ''Sem dúvida, ensinar é algo muito difícil e trabalhoso. E mais difícil se torna quando as condições atrapalham. Ensinar é, sim, uma forma de intervir em vidas humanas, mas pelo convite e não pela invasão. Uma coisa é convidar o educando a viver e esgotar os conflitos naturais da vida, outra muito diversa é o mestre passar-lhe visões do mundo que vêm de dentro dos seus conflitos pessoais, pois é neste ponto que se dá o engendramento de desencontros interiores insensatamente transmitidos aos alunos. Já disse: nem nós podemos caminhar o caminho do aluno por ele, nem este pode caminhar o do mestre; o máximo que se pode fazer é ambos descobrirem juntos conflitos comuns para que, sendo companheiros de uma jornada, tentem superá-los - do campo pessoal ao político amplo.''
Segundo Régis, ensinar é ''in-signare: marcar com um sinal, marcar com o sinal de viver e de conhecer, conviver e participar, falar com''. Esta é a razão pela qual o ensinar e o educar jamais poderão ser apolíticos, no bom senso honesto e crítico. Fica, portanto, fácil de ver que o buscar do outro diz respeito à iluminação do conviver bem com níveis diferenciais de idade, de realidade psíquica, social.
Sob estes aspectos sérios e honestos, concordo em gênero, número e grau com Vitor Paro. ''Um basta no modelo de educação'' e acrescento ensino deformado, falido, apostilado, cujo objetivo precípuo é o comércio e não a condução e o respeito ao ser da cidadania, recuperando o Discimus sed vitae, non scholae (aprendemos para a vida e não para a escola).
DONATO PARISOTTO é professor de Língua Portuguesa e Filologia Românica e Portuguesa em Londrina


