ESPAÇO ABERTO - Ensino bilíngue
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de dezembro de 2012
Claudia Taha 
Não é novidade afirmar que o processo de globalização e os aspectos socioeconômicos são fatores fundamentais para se determinar quem e por que se aprende uma determinada língua estrangeira. Tais fatores podem variar dependendo do país ou de uma região, porém ambas têm o mesmo objetivo: aprender essa língua da maneira eficiente. E é nesse contexto que surge uma nova tendência no Brasil chamada de ensino bilíngue (português e inglês) nas escolas. Poderíamos definir o termo bilíngue como ''ter a competência de se expressar em duas línguas com a mesma fluência''.
Antes, porém, de optarmos pelo ensino bilíngue, deveríamos nos perguntar se é nossa intenção enquanto pais proporcionar o ensino bilíngue para nossas crianças. É inegável a necessidade de se compreender, dominar e ter fluência em língua inglesa, já que esta passou a ser o que chamamos ''língua franca'' nesse cenário global desde o século passado.
Entretanto, essa escolha deve ser baseada em alguns fatores operacionais chave que dão sustentação a esse tipo de currículo. Esses fatores operacionais incluem capital humano especializado e fluente nos dois idiomas, carga horária que ofereça tempo de exposição aos dois idiomas, integração conteúdo x linguagem, dimensões extracurriculares, comunicação baseada em tarefas, networking e métrica de resultado, entre outros.
O ensino bilíngue, no caso do português e do inglês, só existe quando conseguimos introduzir esse modelo já na fase inicial da formação da criança. Em outras palavras, esse processo deve começar já na pré-escola, a partir de 2 ou 3 anos, em que a linguagem de instrução, envolvendo jogos e atividades lúdicas, deverá ser feita tanto na língua materna, no nosso caso, o português, quanto na língua alvo, o inglês. A língua inglesa passa a ser uma ferramenta para se ensinar outras disciplinas tais como artes, música, ciências ou história.
Aqui, na minha opinião, reside o nosso maior desafio: temos recursos humanos, no caso, pedagogos fluentes nos dois idiomas para dar conta dessa demanda? As instituições de ensino que estão propondo um ensino bilíngue sério e de qualidade estão dispostas a oferecer toda a infraestrutura necessária para a implementação desse tipo de currículo? Temos profissionais capacitados para oferecer aulas de história, ciência, artes e música em inglês?
Da minha parte, o que gostaria de salientar nesse momento seria uma transformação em outra direção. Enquanto profissional da área, mãe e educadora, gostaria de uma escola que apontasse para novas alternativas de aprendizado como um todo. Repito aqui as palavras de Roger Schank, especialista americano crítico do modelo tradicional de educação: ''Espero que no futuro as escolas não existam, pelo menos não da forma atual onde o professor fala e as crianças ficam caladas e onde a maior parte do que se ensina é desnecessária e não faz nenhum sentido para quem aprende''. O que temos feito em relação a essa questão?
Assim, ao invés de estarmos decidindo se vamos colocar nossos filhos em uma escola bilíngue ou não, deveríamos sim buscar uma escola, um modelo de aprendizagem que ensine o aluno a aprender ''fazendo'', pois o verdadeiro aprendizado, que fica e que você leva para sua vida toda, vem da prática e não apenas de teorias explicadas em sala de aula.
Por fim, o acesso ao aprendizado da língua inglesa eficiente se faz cada vez mais necessário e deveria ser garantido a todos, indistintamente. Todo e qualquer modelo educacional, público ou privado, deveria estar disponível a todos, inclusive o ensino bilíngue.
CLAUDIA TAHA é mestre em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas em Londrina


