O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado com o objetivo de dar ao governo informações sobre o andamento desse período pedagógico no Brasil. Até aí, e enquanto funcionou assim, era uma ideia interessante. Como milhões de alunos fazem a prova no país todo, o resultado estatístico era confiável. Então, o governo, em mais uma crise de paternalismo, resolveu que os alunos que mais se destacassem no exame, teriam privilégios para entrar nas universidades.
Isso acontece da seguinte forma: as notas de cada área variam de zero a mil pontos. A partir do desempenho dos participantes, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep constrói uma escala de notas máximas e mínimas a partir da qual é estabelecida a classificação dos candidatos. É também por meio de processos estatísticos de alta complexidade que o Inep estabelece a melhora ou piora do ensino médio no Brasil, e aí deveria estar o grande objetivo do Enem, mas...
Para os estudantes que vão se inscrever no Universidade para Todos (ProUni), programa criado em 2004, que garante bolsa de estudo de 50% até 100% para alunos de baixa renda em universidades particulares, a condição absoluta para inscrição no programa é ter feito o Enem! No primeiro semestre são 195.030 bolsas, sendo 98.728 integrais e 96.302 de 50%. O candidato precisa comprovar renda familiar de no máximo três salários mínimos, ter cursado o ensino médio em escolas públicas ou escola particular com bolsa integral da mesma escola.
Para participar do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), outro programa do governo para facilitar a entrada na universidade, considera-se também as notas do Enem, que podem variar de acordo com a instituição, pois há faculdades que dão pesos diferentes a cada uma das notas, dependendo do perfil do curso. Aí entra o ''bônus'', que é oferecido pela instituição onde o candidato pretende estudar. Ao invés de estabelecer cotas (reserva de vagas), a universidade atribui uma ''pontuação extra'' ou bônus, que aumentará a nota obtida no Enem pelo pretendente à vaga. O candidato beneficiado concorrerá ''de igual para igual'' com os demais candidatos cujas notas não foram alteradas. Isso funciona da seguinte forma: se o candidato tiver direito à cota e ao bônus correspondente for de 10%, sua nota aumentará 10% (se tirou 500, a nota válida passa a ser 550).
Resultado: hoje o Brasil tem cursinhos preparatórios para o Enem em todos seus rincões. As bancas de revistas estão lotadas de ''cursos preparatórios para o Enem'', livros e apostilas de todas as cores, em belíssimas edições (sinal que estão vendendo muito). Ora, o Enem não está mais avaliando a qualidade do ensino médio no Brasil, pois as notas dos alunos são altamente questionáveis. Alunos estudam afincadamente com o único propósito de ''ir bem no exame'', porque sabem que significa um largo passo em direção à universidade particular gratuita, ou com um significativo desconto. Resultado, donos de escolas estão ganhando muito dinheiro; alunos estão ''enganando'' o governo; e o exame perdeu seu objetivo, pois fatores alheios aos dados primitivos distorcem as estatísticas.
Escolas investem em cursos para o Enem, porque seus alunos tirarão altas notas e a escola entrará no ranking das melhores, o que é alardeado aos quatro cantos como sinal de qualidade da escola. Hoje o governo gasta milhões de reais para manter um exame em nível nacional que serve apenas como matéria de marketing para as escolas, e para facilitar a vida de estudantes que podem pagar ''cursos para o Enem'', e, quando o governo anunciar os resultados, eles estarão totalmente distorcidos, deixando de revelar a real situação do ensino médio no Brasil, objetivo inicial do projeto. Para encerrar, qualquer aluno com renda média de três salários mínimos (cerca de R$ 1,8 mil) pode pagar um ''curso preparatório para o Enem''. Que país é esse?

PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina

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