ESPAÇO ABERTO - Encontros com o mundo rural
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de agosto de 2003
Paulo Henrique Martinez 
É fato comum que, retornando de viagens, as pessoas tragam pequenos objetos com os quais presenteiam familiares e amigos. Uma ''lembrancinha'', dizem, do local onde nasceram, por onde passaram, trabalharam ou estiveram em visita. Não raro, são miniaturas. Objetos do cotidiano, utensílios domésticos, ferramentas, edifícios, construções e imagens. Em geral, trazem grafados, com maior ou menor destaque, ''lembrança de'' algum lugar. Apontam um estilo de vida e uma paisagem, no mais das vezes, rural.
É o que sugerem amostras recorrentes em Minas Gerais, São Paulo e Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Goiás. Miniaturas de pilões, fogão de lenha, carros de boi, enxadas, barris de aguardente, gamelas, colher de pau, animais domésticos e silvestres. Há, também, uma infinidade de ''paninhos'' tecidos, bordados, pintados ou tricotados. Muitas dessas ''lembranças de'' possuem caráter prático e utilitário, como chaveiro, abridor de garrafas ou toalhas. Quase sempre, porém, resta-lhes adornar um canto ou móvel qualquer da casa.
Estas lembrancinhas são manifestações espontâneas da vida social, exemplos da arte e da tradição do artesanato popular brasileiro, largamente utilizadas como forma de expressão de apreço pessoal. São, também, registros materiais e simbólicos, representações da vida e do tempo em nossa sociedade. Testemunhos que ajudam, e muito, na compreensão da nossa história, passada e presente.
Repetitivas, em sua forma e natureza, tais lembranças deixam antever a pobreza latente no seio da população brasileira. Denunciam deslocamentos, voluntários ou não, que implicam na ruptura e abandono de laços e vínculos existenciais, cujas pontas parecem querer reatar na e pela lembrança daqueles que as ofertam e as recebem. Uma população móvel, em busca de meios de sobrevivência e de melhores dias.
São, ainda, sinais de parcos recursos e das condições frágeis em que realizam seus deslocamentos. As ''lembranças de'' não podem ocupar muito espaço na bagagem e seu preço não pode afastar o desejo de recordar alguém, em algum lugar. Indicam um tempo em que a sociedade esteve voltada sobre si mesma, sem intercâmbios de grande monta. Tanto pelo isolamento físico e geográfico, quanto pela escassez monetária ou pela baixa inserção nos jogos da troca dos mercados. O sociólogo Florestan Fernandes observou que aqueles que não têm o que trocar, trocam afetos.
As matérias-primas dessas ''lembranças de'', confeccionadas em madeira, tecidos, palhas e couro, reforçam suas origens rurais, como trabalho manual, pouco mecânico, rotina não comercial, população fixa, ausência de maquinismos, ritmo lento de tempo. Enfim, uma existência material bastante modesta, expressão de tradições e costumes do cotidiano e do trabalho rural de baixo nível técnico. Uma estrutura da vida coletiva e um passado recente está ao alcance dos olhos nos camelódromos, postos de beira de estrada, barracas de mercados locais e lojinhas de pontos turísticos do centro-sul do país.
O historiador Marc Bloch ensinava que se deve, sempre, passar da análise dos registros materiais à dos mentais. Existe uma memória coletiva do nosso passado rural, muito próximo no tempo e no espaço, que guarda e valoriza as ''lembranças de'' embutidas em miniaturas artesanais. Esta memória anima, entre outros, o mercado fonográfico de duplas sertanejas, o gosto pelas pescarias nos fins de semana, o lazer e a devoção nas festas juninas, o êxito do ''Sítio do pica-pau amarelo''. Acaso esse passado nos oprime?
É casual que movimentos sociais que reivindicam distribuição de renda e de terra encontrem tanta simpatia, acolhida e apoio entre os pobres que recheiam as periferias das cidades, grandes e médias? Entre os filhos da jovem classe média? Nas universidades?
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor do departamento de História da Unesp em Assis


