Política e física têm alguns pontos em comum. Ambas, por exemplo, são vítimas da inércia. Segundo mestre Aurélio, trata-se da ''resistência que todos os corpos materiais opõem à modificação do seu estado de movimento''. Trocando em miúdos e no bom português: vontade, determinação. O terremoto que varre Brasília e cujo epicentro é o Palácio do Planalto, mas especificamente a Casa Civil, poderia dar ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores o carimbo da ética e da moralidade no trato da coisa pública. Mas tanto um como outro parecem caminhar na contramão da história. O cataclismo envolvendo um assessor do ministro José Dirceu pode levar o PT - e consequentemente o governo Lula - à vala comum da política verde-amarela: o descaso com a verdade.
A estratégia do governo tem sido de abafar o escândalo sob o argumento que tudo o que foi mostrado pela imprensa deu-se antes do PT ocupar o Planalto. Ninguém nega tal fato. Acontece que nós, homo sapiens, não temos a capacidade de sofrer uma mutação repentina em nossos atos. Somos fruto de um passado, de uma história contemplada por ensinamentos e práticas de toda natureza. O presidente Lula foi eleito, dentre outras virtudes, pela irreparável vida pregressa de um retirante e operário que jamais transgrediu em seus princípios éticos.
Estas qualidades foram capazes de superar os mais áridos preconceitos por parte de uma elite conservadora que via nele o protótipo da inconsequência, do despreparo intelectual e do sectarismo ideológico. Tivesse sido flagrado compactuando com bicheiros, traficantes ou qualquer cidadão de reputação duvidável certamente a história seria outra. O que a sociedade questiona com razões de sobra é se o ex-subchefe para Assuntos Parlamentares da Presidência da República Waldomiro Diniz se utilizou da função e da ante-sala do poder para fazer outras negociatas. Aliás, esta é linha de conduta que vem sendo defendida pelo ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos.
Certamente que não é possível exigir dos governantes um controle absoluto sobre todas as ações de seus comandados, mas sim a obrigação em apurar atos que possam levar a ínfima suspeita sobre qualquer servidor público. No caso de Diniz há evidências que soçobram. Se o ministro José Dirceu também não pode ser incriminado por sua amizade com acusado, o suspeito não pode deixar de ser averiguado pelo fato de ser amigo do ministro.
Este é - ou deveria ser - um momento ímpar para o governo mostrar não só aos brasileiros mas ao mundo que, doa a quem doer, o país mudou e vai passar a limpo sua história. Caso contrário, se nenhuma medida séria for tomada, o PT corre o risco de ver cair por terra a credibilidade conquistada ao longo de mais de duas décadas como partido de oposição. Afinal, os preceitos éticos não podem ser exercidos segundo as conveniências dos donatários da corte.
A eleição de Lula foi embalada pela esperança de um Brasil melhor, pela mudança de valores e pela perspectiva de que, após cinco séculos, finalmente teríamos um governo onde os interesses estariam voltados muito mais à Senzala que a Casa Grande. Pelo andar da carruagem o povo vai continuar levando muita chibatada no lombo.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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