ESPAÇO ABERTO - Em socorro da Educação Sexual (II)
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de outubro de 2004
Mary Neide Damico Figueiró 
Continuando a tratar de algumas concepções questionáveis sobre a Educação Sexual, trazidas no dia 22 de setembro (Folha Cidadania), na matéria intitulada ''Sexo com naturalidade'', analiso a afirmação do psicanalista Ailton Bastos, de que ''o adulto precisa resolver seus próprios problemas e tabus'' para poder falar sobre sexualidade. Penso que se colocarmos como pré-requisito a condição de resolver seus próprios problemas, desanimaremos, logo de início, muitos dos que desejam ser bons educadores.
Certamente, para conseguir falar com naturalidade, é necessário rever seus valores, sentimentos, tabus e preconceitos. É necessário desvincular-se da noção de pecado, de feio e de sujo aprendida. Porém, não considero que o adulto precise, antes, resolver seus próprios problemas. É possível que uma pessoa com dificuldades em sua vida sexual, mas com uma visão bonita do corpo, do sexo e do relacionamento amoroso-sexual, consiga educar bem.
Destaco, agora, a seguinte afirmação do psicanalista: ''No 'ficar' não há relacionamento, mas uma utilização do outro em benefício próprio. Quando não há afeto e relacionamento, há uma banalização do sexo''. Considero uma análise limitada e generalizante. Pesquisadores ouviram adolescentes sobre o que pensam a respeito do ''ficar'' e afirmam que a grande maioria deles considera saudável e necessário e concebe como uma fase prévia, onde pode estar havendo conhecimento do outro, para se chegar ao namoro. Numa pesquisa em que ouvi 54 adolescentes, em Londrina, a maior parte afirmou que suas mães são contra o ''ficar'' e orientam para não ''ficar''. Mesmo assim, eles acabam ''ficando'', só que de forma conflituosa, e isto pode ser prejudicial para seu desenvolvimento afetivo-sexual.
No ''ficar'', significando estar junto de alguém por um tempo breve, sem compromisso, trocando carícias, pode estar havendo sentimentos, descoberta de sensações, conhecimento de si e do outro. O que é preciso, é uma formação ética familiar, onde se eduque para o respeito ao outro e a si próprio e para a igualdade, entre outros valores. É isto, conforme afirmou a psicóloga Amparo Caridade, que vai assegurar que nossos jovens vivam o ''ficar'' como uma experiência positiva. Diz a autora que há riscos de banalização do outro e do seu corpo ao ''ficar'' e que só a formação ética pode evitar.
Acredito que esses mesmos riscos existem também em muitos namoros (e em vidas de casado) que são pobres de respeito e afetividade. Nossos adolescentes precisam ser ouvidos e se tiverem uma boa e séria Educação Sexual, na escola, eles próprios acabam reconhecendo que, para a iniciação sexual (falo aqui de relação sexual), é preciso ter responsabilidade e respeito e que é bem melhor quando acontece entre pessoas que se querem bem e num momento em que a relação amorosa esteja mais sedimentada.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, especialista em Educação Sexual pela Sociedade Brasileira de Sexulidde Humana, doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina


