Se compararmos o 2º turno das eleições deste ano para a Prefeitura de Londrina com o pleito de 2000 constataremos como aquela eleição teve um nível de disputa muito mais ético e responsável que esta última encerrada no domingo. Ao contrário deste ano, em 2000 não havia nenhum muro pintado, outdoors ou cabos eleitorais contratados, empunhando faixas sob um sol escaldante nos cruzamentos. Isto foi proporcionado graças a um acordo estabelecido entre os dois concorrentes daquela eleição - Nedson Micheleti (PT) e Barbosa Neto (PDT). Londrina foi, na época, tema de reportagens veiculadas em órgãos de comunicação nacional pelo ''fair-play'' demonstrado entre os oponentes. Não foi registrado nenhum tipo de incidente entre as duas coligações naquele ano.
O que vimos, no entanto, neste 2º turno - com uma verdadeira guerra judicial travada entre os advogados de Nedson e Belinati que abusaram de pedidos de impugnação de pesquisa, troca de acusações entre os candidatos, boicote a debates, apreensão de material de campanha com conteúdo negativo ou panfletos apócrifos e até agressão física entre cabos eleitorais em pleno Calçadão - foi um retrocesso para o direito cívico paroquial. Principalmente para uma cidade como Londrina, que sempre esteve na vanguarda do pensamento democrático e que chegou a ser considerada no período da Ditadura, ''a capital da resistência brasileira''.
Mas, passado o pleito eleitoral e com os ânimos serenados, resta-nos aprender com o resultado das urnas. Não só os que concorreram ao cargo de prefeito ou vereador, mas também aqueles que se envolveram no debate de idéias e participaram da discussão dos rumos que a cidade decidiu tomar, enquanto cidadãos, cônscios de suas responsabilidades. É imperioso, portanto, que haja o amadurecimento e o aprendizado com o saldo das urnas. E além do recado sonoro que ecoou com a reeleição do atual prefeito, que terá todos os elementos necessários para fazer, finalmente, uma grande administração - e cabe a todos nós, sociedade e homens públicos colaborar realmente para que isto aconteça, de verdade. Porém, há também um outro lado - uma espécie de mantra silencioso que é quase uma pergunta que não quer calar e que ainda continuará em pauta, talvez, até a próxima eleição: por que neste 2º turno não se discutiu a fundo o que é verdadeiramente essencial para a sociedade londrinense?
Talvez, por estratégia política de forma deliberada ou não, o tom central do 2º turno foi o maniqueísmo ultrapassado que acabou servindo de escudo para blindar o vitorioso. Soma-se a isto o engessamento dos debates pelo rádio e pela TV com modelos superados que truncaram o choque de idéias e de propostas reais para a cidade formando-se o pano de fundo necessário para legitimar a reeleição do atual prefeito. Espero que todos os membros da sociedade (jovens, idosos, profissionais, desempregados, donas-de-casa, trabalhadores) nos vários setores da nossa sociedade cumpram com seus papéis e que haja verdadeiramente a divergência, ingrediente principal de uma verdadeira democracia, para evitarmos o entorpecimento letárgico dos últimos quatro anos.

BARBOSA NETO é jornalista, deputado estadual e líder do PDT na Assembléia Legislativa

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