O grande lema das eleições de 2012 é: ''Vote limpo''. Este lema refere-se à Lei da Ficha Limpa, já reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e que está em pleno vigor. Esta lei provém da iniciativa do nosso povo no intuito de exorcizar a corrupção na política. Ficha Limpa quer dizer ética na política. Nestas eleições a Justiça barrou até agora 317 candidatos a prefeito que têm ficha suja. Portanto, a lei está em pleno vigor.
Nossa história política, especialmente no que diz respeito às eleições, é muito viciada. Eis alguns vícios: promessas descabidas, irrealizáveis, e não cumpridas, pior ainda, é o lema ''rouba, mas faz''. O financiamento dos candidatos é também um problema não resolvido. O hábito de votar segundo indicam as pesquisas, não é voto consciente nem livre, mas, voto oportunista. ''O que fui na política eu devo à minha devoção à verdade'' (Gandhi).
Política não é apenas votar, mas também lutar por um Brasil ''politicamente democrático, culturalmente plural, ecologicamente sustentável, religiosamente ecumênico'' (D. Valentini). Não construíremos o Brasil acima descrito com certos tipos de políticos, a saber: político de promessas, político interesseiro, político exibicionista, político que só aparece nas eleições, político de lábia e aparência. Votar limpo é votar no candidato competente, honesto, transparente, justo.
Por outro lado, há diversos tipos de eleitores, como: quem vota para pagar favores, eleitor que vota no mais forte, no que tem aparência física, no que fala bem. Temos ainda eleitores que votam por tradição, como também, os que se deixam conduzir pelos cabos eleitorais. Estes eleitores não ''votam limpo''.
Candidatos devem ser ''homens e mulheres de Estado'' e não ''negociantes do poder''. Devemos olhar não as próximas eleições, mas as futuras gerações. Portanto, homens e mulheres de visão. A política não é arena de ambições, nem corrida para ganhos próprios, mas a arte da construção da civilização do amor, da justiça e da paz.
Precisamos vencer o pessimismo, o desinteresse e o desencanto pela política. A Lei da Ficha Limpa, mais a Lei 9.840 que combate a compra de votos e a Lei de Acesso à Informação que prescreve a transparência no financiamento das campanhas são avanços para o voto limpo e consciente. As escolas de Formação Política nas dioceses têm ajudado a melhorar o nível dos candidatos, inclusive, a nossa aqui em Londrina, em parceria com a OAB e a nossa Comissão de Justiça e Paz.
Nosso povo precisa de conscientização política para não se tornar um ''exército eleitoral de reserva'' a ser comprado nas eleições (CH. Whitaquer). O povo deve sabe tudo a respeito de seus direitos e deveres, mas também sobre a máquina eleitoral, principalmente o financiamento das campanhas. Infelizmente, nossa prática política consiste apenas em votar. Depois tudo corre conforme a vontade dos eleitos.
Precisamos criar a consciência do acompanhamento dos eleitos, cobrar as promessas, averiguando sua postura ética, seus interesses pelos pobres e pela comunidade. No Brasil as coisas mudam sob pressão e fiscalização da sociedade. Ainda somos muito alienados, desinformados, desinteressados pelas coisas públicas, especialmente, o envolvimento com a política no dia a dia, para mudar as coisas para melhor.
Nossas escolas de Fé e Doutrina Social da Igreja, a Comissão de Justiça e Paz, as pastorais muito colaboram nesse sentido. Os critãos devem ser ''sal da terra e luz do mundo'', pois a fé sem obras é morta (cf Tg 2,17). Deus, ao libertar Israel da escravidão do Egito enfrentou a realidade política e prometeu terra, liberdade, vida e salvação ao seu povo. Deus sempre tem a ''política'' da verdade, da justiça, da liberdade e da paz, que são características do seu Reino.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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