No período de 22 a 28 de outubro uma rádio londrinense realizou entrevistas com uma diretora da escola e membros da comunidade sobre a polêmica levantada pelos pais de uma garota que havia levado para casa um material didático explicativo sobre sexualidade, recebido após uma aula de ciências. O material causou indignação por parte dos pais da menina, que consideraram o conteúdo do mesmo pornográfico e inadequado. Essa polêmica foi levada a público através de uma série de programas realizados na referida rádio, nos quais foram realizadas entrevistas com os pais da garota, com a secretária municipal de educação, a diretora do colégio e com a participação dos ouvintes.
Durante os programas, a atitude da professora foi considerada pelos radialistas e pela maioria dos participantes como incorreta que trazia prejuízos ao bem-estar dos alunos, pois incitava a prática sexual precoce e a prostituição. Durante todos os programas, os radialistas mantiveram uma postura agressiva com relação à professora, chegando a insinuar que a atitude dela em sala de aula feria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pois a mesma estaria ''molestando'' os alunos em sala de aula.
Foi com muita preocupação que nós, membros da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids e, participantes efetivos dos programas de educação sexual que vem sendo desenvolvidos nas escolas públicas e privadas do município de Londrina e região, acompanhamos esses debates. Dentre outras, uma das preocupações foi com relação à forma pejorativa como esse tema foi abordado pelos radialistas que utilizaram argumentos infundados, preconceituosos e discriminatórios que no mínimo refletem a falta de informação sobre as políticas públicas municipais de educação e a falta de compromisso com a construção de uma imprensa crítica e atenta às questões sociais. Acreditamos ser imprescindível não deixar de lado o absurdo de associar educação sexual nas escolas a uma prática que traz danos morais. A educação sexual nas escolas é direito, como preconiza o artigo 3º do próprio ECA.
A finalidade da proposta de se incluir a educação sexual nos parâmetros curriculares é contribuir para que os alunos possam desenvolver e exercer sua sexualidade com prazer e responsabilidade. A educação sexual se vincula ao exercício da cidadania na medida em que propõe o desenvolvimento do respeito a si e ao outro e contribui para garantir direitos básicos a todos, como a saúde, a informação e o conhecimento, elementos fundamentais para a formação de cidadãos responsáveis e conscientes de suas capacidades.
Sendo assim, propomos um amplo debate que envolva a escola (professores, funcionários, diretores), a comunidade, pais e mães e os próprios adolescentes. É para estes últimos que devemos ter o compromisso de dialogar, perguntar e discutir e que, muitas vezes, nos esquecemos. Assim, acreditando no bom-senso, ética, respeito e no compromisso pela vida e não pela morte social, é que esperamos que a sociedade e seus meios de informação e educação revejam seus papéis para que todos possam ter direitos assegurados a suas orientações sexuais, sociais e políticas.

FLÁVIA CARVALHAES, SÍLVIA M. REGIANI e CAROLINA BRANCO são membros da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids

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