O artigo ''A invasão dos espermatozóides'', publicado na Folha no último sábado e assinado pelo ginecologista Calvino Coutinho Fernandes, traz uma visão parcial e fragmentada da educação sexual. De fato, a família tem um importante papel na educação sexual dos filhos, mas deve preparar-se, buscando conhecimentos para desempenhar bem esta sua função, pois, se o amor manifestado entre os pais é educativo, por si só não basta. Além do mais, não são todos os casais que têm condições de dar testemunho de uma vida afetiva e sexual positiva.
Reconhecer a importância dos pais nesta questão não nos possibilita excluir o papel da escola no ensino da sexualidade. É verdade que não bastam apenas informações, mas é necessário, acima de tudo, uma educação formativa, na qual sejam trabalhados valores, sentimentos e atitudes em relação ao sexo.
E os professores podem e devem trabalhar valores e atitudes, não impondo os seus próprios, mas criando várias oportunidades de reflexão individual e de debate em grupo. É um exercício que deve ser sistemático, feito a longo prazo e, sobretudo, iniciado na educação infantil.
Assim sendo, é função da escola, também, educar sexualmente. Por quê? Porque é um direito da criança e do adolescente conhecer seu corpo e a sexualidade, ter uma visão positiva da sexualidade, elaborar seus próprios valores, a partir de um pensamento crítico e tomar decisões responsáveis a respeito de sua vida sexual.
Esta tarefa da escola, e não apenas dela, intensifica-se diante da presença avassaladora de DST (doenças sexualmente transmitidas) e da Aids, assim como da gravidez na adolescência. E só um trabalho formativo e sistemático, acompanhado de preparo dos professores e de um envolvimento da escola como um todo, é capaz de alcançar resultados positivos.
Se as camisinhas estiverem disponíveis nas escolas, para os alunos que precisarem delas, poderemos ter uma probabilidade maior de que serão usadas. Maior ainda será a probabilidade, nos asseguram estudos feitos na Universidade de São Paulo (USP), se nossos jovens forem pessoas acostumadas a conversar sobre sexo com os pais e com os colegas e, neste último caso, a escola pode ajudar diretamente, criando, como já assinalei, oportunidades para conversas qualitativamente positivas entre esses.
Achei o artigo do ginecologista agressivo e desrespeitoso para com os profissionais da Saúde, que têm se empenhado em buscar saídas para os problemas sociais, o que deveria ser preocupação de todos, inclusive de quem trabalha isolado num consultório.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é mestre em Psicologia Escolar, doutora em Educação e professora na Universidade Estadual de Londrina

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