ESPAÇO ABERTO - Educação ''sensual''
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004
Calvino Coutinho Fernandes 
Que tipo de educação sexual estamos fazendo? Informar sobre riscos de doenças sexualmente transmitidas (DSTs) ou gravidez indesejada, sobre o funcionamento do aparelho reprodutor ou distribuir camisinha não é educar. Educação não se transmite ao aluno, mas sim nele se desperta (Tomás de Aquino) e este processo é lento pois precisa atuar na atitude, na motivação do aluno.
O adolescente é uma Ferrari que acabou de sair do forno, está aquecidíssimo pelos hormônios gônadais (testosterona, estrogênios). Toda esta química foi tremendamente ''envenenada'' pela propaganda sexual apelativa da mídia e um preservativo acenando na sua cara pela própria escola pode funcionar como uma bandeirada para a largada do H.P.V em alta velocidade.
No meu artigo ''Sexo Seguro: falácia fúnebre'' recordei o desastre da Virgínia, nos Estados Unidos, onde um programa de educação sexual, parecido com o brasileiro, foi implantado de 1989 a 1990 e não reduziu o aborto e nem as DSTs entre os adolescentes.
Uma educação do tipo ''faça o que for melhor para você'', acaba sendo conivente com a frivolidade e rasura sexual que se alastrou por nossa sociedade e o mais grave: pode sensualizar mais do que educar ajudando a afundar o jovem amargas águas das DSTs que podem produzir sequelas no corpo e na alma.
Museveni o de Uganda deu a volta por cima e o seu programa de educação sexual serve de alerta para o chamado primeiro mundo. Uganda conseguiu uma mudança no comportamento em relação ao sexo. Edward Green membro do conselho presidencial para Aids e pesquisador sênior de Harvard disse que o trunfo da abordagem ugandense foi não ter se concentrado apenas nos remédios ocidentais e no uso de preservativos.
Hoje Uganda tem a menor prevalência de Aids da África. Num continente que chorou a morte de 2,4 milhões de seres humanos em 2003 e tem quase 30 milhões de infectados, os 5% portadores de HIV em Uganda são um estímulo à educação sexual séria e comprometida do poder público e da sociedade.
Em 1995 pouco mais da metade dos adultos era fiel a seus parceiros em 2000/2001 97% dos homens e 88% das mulheres (casados) eram fiéis, um pouco menos entre os solteiros.
O programa de prevenção se resume a um trinômio: abstinência, fidelidade ou camisinha. Todos os segmentos da sociedade se envolveram e em quase todas as salas de aula ensinam-se fatos sobre Aids.
Com uma educação aberta ao diálogo franco e direto voltada para a abstinência o número de jovens ativos sexualmente caiu vertiginosamente. Numa escola, o número de rapazes que faziam sexo despencou de 61% em 1994 para 5% em 2001, enquanto o número de moças sexualmente ativas caiu de 24% para 2%.
Contrastando com o sucesso de Uganda temos estatísticas alarmantes em Botsuana de 38,8% de infectados e de 33,7% em Zimbabue, justamente os países que têm maior acesso aos preservativos.
Uganda não sensualizou a educação sexual, não minimizou a voracidade e letalidade desta peste mundial e, embora seus índices ainda sejam altos, este país se tornou uma pérola de prevenção naquele grande, belo e ameaçado continente negro. O presidente está de parabéns, o país saiu vitorioso pois reconheceu que sexo seguro (com camisinha) sem educação adequada é uma falácia fúnebre.
CALVINO COUTINHO FERNANDES é terapeuta sexual e ginecologista


