ESPAÇO ABERTO - Educação sem medo da sensualidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
Mary Neide Figueiró 
Na última terça-feira, o ginecologista Calvino Coutinho Fernandes escreveu artigo defendendo a proposta de uma educação sexual voltada para a abstinência sexual dos jovens. Diante de tão comprometedora posição, como profissional que vem trabalhando na formação de educadores sexuais, na Universiade Estadual de Londrina, vejo-me no dever de mostrar a visão da grande maioria dos estudiosos da educação sexual.
Em primeiro lugar, precisamos nos perguntar o que pensamos da criança e do adolescente que vamos educar. Nós os vemos apenas como uma ''Ferrrari'' aquecida pelos hormônios, ou como uma ''esponja'' sempre pronta a absorver atitudes, como diz dr. Calvino em seus textos? Os professores vêm aprendendo que os alunos são capazes de construir conhecimento, de formar idéias e atitudes, e necessitam de educadores (e aqui também se incluem os pais) que criem as condições para que pensem, discutam e sejam ouvidos.
Se usarmos o discurso da abstinência sexual, muitos adolescentes acabarão transando e a experiência vai ser acompanhada de angústia e de culpa e isso pode, muito provavelmente, contribuir para desajustes sexuais. Se lhe dizem que não pode fazer sexo, que é, enfim, moralmente condenado, o adolescente não vai prevenir-se com responsabilidade, porque prevenir-se significa estar preparando-se para um ato moralmente reprovável; é assumir-se estar sendo uma pessoa moralmente afetada.
É um grande risco e um desrespeito ditar regras aos jovens e isto já está superado na educação. Não usamos a alternativa de dizer ao adolescente ''faça o que for melhor para você'', como o médico pensa que os professores fazem. Muito além de dar aulas sobre biologia e fisiologia da sexualidade, é preciso ouvir os jovens e educar ajudando a trabalhar sentimentos e atitudes e a preservar os valores fundamentais como o amor, o respeito por si e pelo outro, a justiça, a igualdade e a liberdade. Assim, bem formado, eles podem tomar suas próprias decisões com responsabilidade.
Por que temer a sensualidade, o erotismo? É oportuno o pensamento do dr. Paulo Rennes M. Ribeiro: ''... é perfeitamente possível denunciar a total ausência de valores éticos universais na formação dos indivíduos, a total ausência de respeito pelo outro, a égide do consumismo e do 'levar vantagem a qualquer preço'. É isto que traz problemas para a sexualidade, não a erotização em si. A erotização é natural no ser humano, anima o corpo e a vida. As relações interpessoais é que estão materializadas, sem afetividade, sem amizade''.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina


