ESPAÇO ABERTO - Educação se curva ao capitalismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de novembro de 2003
Rubya Tesser 
Qual é o propósito de um vestibular ''fora de época'', como vem ocorrendo na Universidade Estadual de Maringá (UEM)? Por que houve prorrogação do prazo de inscrições do vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL), mesmo depois de terminada a greve dos funcionários da CEF (Caixa Econômica Federal)? Estas e outras inquietações rondam o pensamento de estudantes paranaenses ao receberem as desagradáveis notícias referentes à concorrência das universidades do Paraná.
A educação, caros organizadores, não é brincadeira administrativa. Como lembrou Paulo Freire, ''é um ato político''. Por isso, exigimos um programa previamente planejado, bem como o cumprimento do calendário estabelecido. A universidade, representante do modelo de instituição educacional, deve assumir os problemas sociais e equacionar as questões básicas que atingem diretamente a população. É inadmissível o distanciamento entre estes segmentos, o diálogo não pode ser calado. Se isso não é costume das universidades do Paraná, então, é preciso repensar as reais funções e competências que elas desempenham.
Nós todos sabemos que o concurso de vestibular não é capaz de avaliar todas as potencialidades do candidato, por isso não seleciona de forma ideal. Cientes disto, as universidades paranaenses pouco se importam com a realidade enfrentada pelos estudantes, sobretudo do ensino público. Isto, causa-nos a ligeira impressão de que notoriamente contribuem para o acirramento dos ânimos dos vestibulandos. Agem com uma suposta ingenuidade fazendo-nos acreditar na direta proporcionalidade entre o aumento do número de candidatos e a melhor seleção destes. Julgam, acima de tudo, destino das vagas dos cursos concorridos. Ao final do concurso encontramos, na lista de aprovados, uma população essencialmente ''estrangeira'' (paulista).
A certa altura, muitos estariam nos acusando de medrosos. Mas não se trata de pêsames, devemos nos ater ao nosso real desenvolvimento. Os paulistas têm acesso ao eixo técnico-científico-cultural do país, o que explica as diferenças, gritantes ou não, mas existentes entre os nossos candidatos e os de fora.
Qual é a perspectiva de uma sociedade que se vê abandonada por um sistema de educação pouco compromissado com a inclusão social? Resta-nos a seguinte conclusão: as instituições do Paraná fazem parte do grupo de vítimas que é afetado diretamente pela crise econômica na educação brasileira ou a magnitude desta conjuntura social refletiu-se nas decisões unânimes das universidades e, por isso, optaram por um concurso cujo número de inscritos alcançasse seu recorde?
É deste modo que enxergamos o vestibular, como um teste de seleção que perde seu sentido funcional. Quando uma universidade, do porte da UEL, apondera-se de mais de 36.591 inscritos, ela precisa, no mínimo, garantir um exame de seleção justo e sensato, ou seja, dentro da realidade dos estudantes paranaenses. É fato, isso já se busca desde as últimas provas que apresentaram ótimas novidades com a adoção da filosofia, da sociologia e das artes.
Entretanto, um ensino bem estruturado não precisa de quantidades astronômicas de candidatos para se conceituar ou para realizar uma boa seleção. Basta aos candidatos uma qualificação de maneira que sirvam como cidadãos fiéis ao exercício da cidadania, sustentado ou não pela ideologia universitária. Esperamos veementemente por um vestibular satisfatório, que no mínimo, compense nosso profundo pesar.
RUBYA TESSER é estudante em Londrina


