ESPAÇO ABERTO - Educação para uma nova sociedade
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de junho de 2013
Luís Miguel Luzio dos Santos 
A Finlândia é um pequeno país próximo ao círculo polar ártico que vem chamando a atenção pelo seu desempenho na área educacional, alcançando os melhores resultados em diferentes rankings internacionais. A revolução iniciou-se há 50 anos, quando o país ainda apresentava sérios problemas sociais e elegeu a educação como principal estratégia de desenvolvimento nacional. O processo de transformação começou pela promoção da escola pública, que hoje representa 98% de todo o sistema educacional do país, colocando lado a lado o filho do empresário e o do operário. Esse empenho serviu de alicerce para a construção de uma das sociedades mais justas de todo o mundo.
Uma das razões do êxito da educação finlandesa se deve à valorização da carreira docente, tornando-a uma das mais concorridas do país. Os professores são altamente qualificados, possuem no mínimo mestrado e contam com elevada carga de conteúdos pedagógicos em sua formação, o que faz a diferença em seu desempenho. Outra questão importante é a continuidade das políticas educacionais que, independentemente das mudanças de governo, permanecem estáveis, assim como o investimento de 7,5% do PIB em educação, o que garante níveis semelhantes de qualidade em todas as escolas do país.
O modelo finlandês tem um empenho reforçado nos anos iniciais de formação, direcionando os melhores professores e recursos para esta etapa. As turmas são pequenas, próximo a 20 alunos, o que assegura uma atenção particular para cada estudante. As metodologias utilizadas prezam pelo diálogo e a participação permanente do aluno no processo de aprendizagem, estímulo ao espírito crítico, à criatividade, reforça-se a importância das humanidades (estão entre os alunos que mais leem no mundo), das artes, de atividades voluntárias, além de se valorizar o convívio familiar.
Outra questão essencial para o sucesso desse modelo é a atenção redobrada dirigida aos alunos com maiores dificuldades de aprendizado, por isso contam com turmas de reforço escolar, com professores especializados e apoio psicopedagógico. O desafio é conseguir o desenvolvimento de todos os alunos, o que se reflete em reduzidíssimos índices de repetência.
Outros destaques mundiais na área de educação, como a China e a Coreia do Sul, concentram suas ações na disciplina rígida, pressão social, estímulo à competição e ao individualismo. Se por um lado isso vem se refletindo em bons resultados tecnocientíficos e avanços econômicos, também vem provocando alguns dos maiores índices de suicídio e depressão juvenil de todo o mundo. A Finlândia apoia-se em outras bases, promove o envolvimento e comprometimento dos alunos com o bem comum, com a cidadania e sem sacrificar outras dimensões da vida dos jovens.
As políticas educacionais refletem-se diretamente no tipo de sociedade que se pretende criar. O exemplo da Finlândia contraria o modelo competitivo e técnico do Oriente e avança num sistema que privilegia o bem-estar coletivo, as relações humanas e a responsabilidade social, o que resulta num dos menores índices de corrupção de todo o mundo e um dos maiores IDHs. Promover a equidade e o bem coletivo fazem parte da cultura finlandesa e explicam boa parte das suas escolhas no campo educacional.
Ainda que cada região tenha suas particularidades, não se pode desprezar o que vem sendo realizado em outros lugares do mundo com reflexos sociais admiráveis. Uma coisa parece clara na experiência finlandesa e dá lições para o mundo, é necessário avançar em capacitação tecnicocientífica, mas sem sacrificar as humanidades e os conteúdos reflexivos, considerando que são estes que asseguram o uso apropriado dos primeiros em favor da promoção do bem coletivo, garantindo igualdade de oportunidades e correção de erros históricos.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS
é doutor em Ciências Sociais e professor
do departamento de Administração
da Universidade Estadual de Londrina
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