Refletir sobre a educação escolar brasileira é ir além de uma comparação simplista com países desenvolvidos. É ver o que estamos fazendo e o que deixamos de fazer. Sem entrar no mérito do financiamento público da educação, pois se os recursos são considerados poucos, pior é constatar que estão sendo mal gastos. Portanto, vamos refletir outros pontos fundamentais.
A partir dos anos 1990, o Brasil precisou universalizar a educação, entretanto, não tinha salas de aula nem professores qualificados suficientes para atender a demanda. Superlotar as salas de aula e promover uma qualificação acelerada, só para expedir diplomas, foi a solução encontrada. Não se nega que foram construídas novas escolas, o fato é que ainda hoje está longe de ser o suficiente. Quanto à formação,uma simples pesquisa constata que a maioria dos professores desconhece ou não compreende a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nem as diretrizes específicas para cada nível de ensino e, mais pontualmente, não conhece a proposta pedagógica de sua escola.
Como a maioria não é totalidade, encontramos muitos professores que sabem que deveriam desenvolver um trabalho pedagógico diferente, mas deles é exigido o cumprimento fiel da lista de conteúdos constante nos livros didáticos, que custam fortunas e quase sempre estão completamente fora do contexto social do aluno. Decorrem daí, aulas desinteressantes para o aluno que tem sua história, seu contexto e seu conhecimento prévio desprezado.
Temos também o professor com receio ou com má vontade de fazer algo diferente, mesmo que a lei permita. É mais fácil apoiar na muleta do livro didático e dizer que estamos cumprindo o programa. Se o aluno não aprendeu é problema dele.
Esses pontos, por si só, nos mostram que é preciso debater com as comunidades escolares o que é e o que se quer da educação escolar; que é preciso que a comunidade participe para que se moralizem os gastos; que é preciso acabar com a formação "faz de conta" que conduz à sala de aula professor despreparado, que continua fazendo a mesma coisa sempre, sem saber se está certo ou errado.
As leis, diretrizes educacionais, propostas pedagógicas e demanda social precisam ser debatidas concretamente nas bases, em cada escola, e compreendidas por toda comunidade escolar para que se possa agir com eficiência e eficácia.
Entretanto, é preciso ver também que, a despeito desses pontos negativos discutidos acima e outros tantos produzidos por políticas públicas mal conduzidas e desconhecimento de causas, encontramos no Brasil boas propostas diferenciadas de trabalho pedagógico. É o caso da metodologia de projetos adotada pelo Programa a União Faz a Vida (PAUFV), um programa de responsabilidade social coordenado pela Fundação Sicredi. Nos municípios parceiros os gestores e professores recebem formação e são assessorados na implantação de seus trabalhos. A metodologia permite que a comunidade participe efetivamente da ação educativa e a escola ganhe significado. Não só a sala de aula, mas todo o seu entorno se transforma em espaço educativo, onde os alunos têm oportunidade de pesquisar, observar, escutar, perguntar, debater, planejar e experimentar e, assim, produzir conhecimentos e não simplesmente incorporar e memorizar informações elencadas em tópicos de conteúdos estabelecidos em gabinetes, longe do contexto social em que alunos e professores convivem.
Pautada na vertente de uma formação para a autonomia de aprendizagem e capacidade crítica do aluno a metodologia de projetos adotada pelo PAUFV foca na cooperação e cidadania, valores estes que congregam todos os demais valores positivos necessários à vida da humanidade.

LUIZ GONZAGA DE MELO é professor e assessor pedagógico do Programa A União Faz a Vida em Ibaiti

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