ESPAÇO ABERTO - Economia e pandemia: uma obviedade ululante!
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terça-feira, 26 de janeiro de 2021
Daniel Marinho Corrêa 
Dificilmente poderíamos imaginar que a economia e até a civilização em que vivíamos eram tão frágeis. Que essa realidade pudesse ser mudada de uma maneira tão surpreendente. Havíamos nos acostumado a considerar que o nosso nível de riqueza era o ponto de partida para melhorias e que apenas contratempos ocasionais retardariam uma trajetória obviamente "inevitável". Mas sem saber, fomos pegos de surpresa pela história, porque esquecemos a lição do filósofo austro-britânico Karl Popper de que a narrativa humana é um processo aberto e imprevisível. O excesso de confiança, por outro lado, nos fez negligenciar tudo que era relacionado à seguridade em seus mais variados aspectos.
No campo da saúde, em particular, a segurança era considerada garantida ou facilmente recuperável, uma vez que estávamos convencidos de possuíamos meios poderosos para tal. As epidemias eram coisa do passado, de quando a humanidade vivia em atraso, de modo que a saúde pudesse viver hoje sem lacunas, porque os grandes riscos coletivos haviam desaparecido para sempre. Nem era necessário se preocupar com a garantia de suprimentos sanitários e medicinais, assumindo que a qualquer momento eles pudessem ser obtidos em um local ou outro. Nesse contexto, era necessário apenas se preocupar em aumentar a expectativa de vida, controlando doenças conhecidas por meio de pesquisas de ponta. Saúde quase invulnerável era algo que começava a aparecer no horizonte.
Essa satisfação pessoal, agora constrangedora, não era exclusiva do mundo da saúde. Lembremos que um ingênuo prêmio Nobel havia profetizado no início do milênio que as crises haviam terminado para sempre, porque finalmente dominamos os ciclos. Mas de repente, um vírus invisível quebrou os cálculos, a confiança e devolveu a incerteza, e com ela a sensação de fragilidade, em nossas vidas e em toda a civilização.
Entre os balanços que precisam ser refeitos está o do futuro imediato da economia, devido às muitas incógnitas estritamente sanitárias que existem até então. No seu conjunto, as medidas implicam, necessariamente, na identificação de três núcleos de problemas: grupos vulneráveis, liquidez das empresas e necessidade de um ambiente jurídico-legal flexível.
O grande desafio será enfrentar um eventual prolongamento da emergência sanitária, que reduzirá cada vez mais os recursos disponíveis, transformando as tensões de liquidez das empresas em problemas de solvência, questionando a capacidade de sobrevivência de certas áreas do tecido produtivo. Então a crise econômica assumiria outra dimensão, mais uma vez inesperada (ou não).
Daniel Marinho Corrêa é professor, servidor do TJPR, mediador judicial (CNJ) e mestrando em Direito Negocial pela Universidade Estadual de Londrina, com extensão pela Harvard University (EUA)


