ESPAÇO ABERTO - E seja feita a nossa vontade
Cristo, antes de tudo, veio propor um novo projeto civilizatório, centrado na solidariedade entre todos
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019
Cristo, antes de tudo, veio propor um novo projeto civilizatório, centrado na solidariedade entre todos
Espaço Aberto 
Ao longo da historia a religião foi várias vezes usada para legitimar todo o tipo de atrocidades. O método se repete, deforma-se a mensagem essencial e forja-se um discurso customizado que segue a máxima dos poderosos: “que seja feita a nossa vontade”, tutelando os mais frágeis e obstaculizando qualquer tentativa de emancipação. Substitui-se o amor ao próximo e o ideal de fraternidade em que todos seriam iguais, por um culto personalista que cria a ideia de um deus mesquinho, vaidoso e inseguro, que só age mediante bajulação, num processo de antropomorfismo que transfere os egos inflados dos humanos para o plano divino, algo recorrente desde a mitologia primitiva.
Cria-se a figura de um deus que precisa continuamente ser massageado em seu ego, para em troca atender aos nossos clamores, num vergonhoso balcão de negócios. Nesse transe coletivo esquece-se o principal, o amor incondicional e a fraternidade como forma de vida coletiva. A cruz, elemento simbólico de reflexão, nos convida a abraçar duas dimensões interdependentes. O madeiro vertical aponta para o alto, para o mistério e para a comunhão com a transcendência, mas só há cruz se incluirmos o madeiro horizontal, que aponta para o lado, para a comunhão com o outro, seja ele o ladrão, o doente, o pobre, o estrangeiro, a prostituta, o homossexual, o negro, o índio ou qualquer outro desprezado e excluído.
Jesus Cristo não veio com a intenção de criar uma igreja, mas o Reino de Deus (que aparece mais de 100 vezes no texto bíblico). O Reino de Deus pode ser compreendido pela forma como viviam as primeiras comunidades cristãs, descrito em Atos (4, 32-35). : “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas, as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um”.
Cristo, antes de tudo, veio propor um novo projeto civilizatório, centrado na solidariedade entre todos. Convida-nos a amar quem não é igual, nada mais distante do fundamentalismo religioso que reduz o amor aos iguais. Quando se fala em direitos sociais, solidariedade, distribuição de renda, inclusão social e em bem-comum, tudo isso nada mais é do que viver o Evangelho, é transformar a contemplação em compaixão, é deixar-se tocar pelo sofrimento e a dor do outro, principalmente o mais desprezado. Pois “quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, que não é visível” (João 4,20).
Na época do Natal a sensibilidade tende a aflorar e leva milhões a praticar ações de caridade. Contudo, muitos destes, são os mesmos que durante o ano se opuseram a toda e qualquer política pública em prol de maior justiça social, nomeadamente expansão de direitos para os mais desvalidos ou mesmo preservar suas conquistas históricas. São indivíduos que não admitem bolsa família, cotas, reivindicação por reforma agrária ou por aumento salarial. Caridade é bom para o ego, reveste-se de poder e anestesia as consciências. Diferentemente, a justiça social mexe nas instituições, muda as regras para que todos tenham vez e possam compartilhar o banquete na casa comum, desnaturalizando as formas de estratificação e dominação que impedem a comunhão fraterna.
O que diria Jesus se regressasse à Terra?" O que pensaria da maneira como a riqueza está distribuída? Apoiaria um mundo em que indivíduos agem como semi-deuses e se tornam senhores da vida e da morte? Não podemos esquecer que somos o país com maior numero de cristãos do mundo e simultaneamente a sociedade mais desigual e injusta do planeta. Isso deveria ser motivo de vergonha e de profunda reflexão sobre as deformidades impostas ao cristianismo.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS – Professor da UEL e autor do livro: Pautas para outra sociabilidade


