ESPAÇO ABERTO - Doutores da alegria
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004
Júlio Cesar Rodrigues 
Nas areias de Porto de Galinhas, Pernambuco, um vendedor de cocadas nada convencional transita por entre as cadeiras e guarda-sóis brincando com a política nacional e cantarolando para os veranistas: ''Lula vai, Lula vem. Lula viajando e o povo pagando''. E vende mais cinco cocadas.
O garçom que passa ao lado já conseguiu arrebanhar vários turistas para a barraca onde trabalha. Sua publicidade promete conforto diferenciado em plena praia: acomodação numa ''suíte presidencial'' (guarda-sol gigante e cadeira para todos). ''Está tudo no meu site'', diz ele, mesmo sem saber como se liga um computador. Mas qual o seu nome, rapaz? ''Meu nome é Alegria''. E ganha mais uma boa gorjeta.
Detalhe: o garçom ''Alegria'' (só é conhecido pelo apelido), com pouco menos de trinta anos, está com sérias complicações na coluna vertebral. Culpa do trabalho anterior na obra de um grande resort da região. Mal consegue andar, mas não entrega a rapadura. Percorre mais de dez quilômetros por dia no vai-e-vem das bandejas.
Os ambulantes do litoral nordestino tiram o pão-de-cada-dia vendendo de camisetas a caldo de feijão. Para alguns, o bom-humor é uma questão de sobrevivência. Para outros, está na alma. Mas onde encontram força para brincar em meio a tanta pobreza e dificuldade?
As histórias de amor pela vida também estão nessas bandas do sul. Dia desses, num clube da cidade, uma senhora se aproxima da piscina com três filhos: os dois maiores, andando; o caçula, no colo e com uma incômoda sonda de alimentação. Decorrência da paralisia cerebral que o atingiu nos primeiros meses de vida. Aos dois anos, o garoto não anda, não fala e não come sozinho. Mas não há sinais de tristeza em seu semblante. Sorriso nos lábios, a mãe deixa a lição para jamais ser esquecida: ''Aos filhos mais velhos, eu ensino. Com o mais novo, eu aprendo''.
E o que dizer da garota Paula, 15 anos, que aparece num comercial de uma entidade ligada a crianças com Síndrome de Down? Cantando e dançando, com alegria contagiante, passa a mensagem de que deve ser tratada como uma criança qualquer. E emociona.
Em cada um dos exemplos, a mesma verdade: com alegria, a vida é muito melhor. Estudos já demonstraram que o riso é remédio para vários males e prevenção para outros tantos. Então por que fechar a cara por conta das adversidades, da incompreensão ou do insucesso?
Se o garçom pernambucano realmente tivesse acesso à internet, poderia conhecer o trabalho dos ''Doutores da Alegria'' (www.doutoresdaalegria.com.br), um grupo de voluntários, letrados na arte circense, que frequenta hospitais em São Paulo, Rio e Recife levando alegria para as crianças internadas. São especialistas em ''besteirologia''. Nos quartos, na enfermaria ou na UTI, combatem as atitudes negativas das crianças em relação à doença e à recuperação.
Segundo eles, a ''besteirologia'' deve ser aplicada diariamente até que o paciente não saiba mais como ficar triste. É remédio para toda a vida e não tem contra-indicações. Pode e deve ser usado por todos. Em casa, no trabalho, na escola. Significa tornar a vida mais leve. Implica mudança radical de comportamento diante das pessoas e dos problemas.
É bíblico que devemos sempre nos alegrar em tudo, porque em tudo se deve dar graças. E uma simples olhadela na natureza exuberante, do canto dos pássaros à grandeza do mar, revela que, apesar dos percalços que enfrentamos dia-a-dia, há milhões de razões para sorrir.
JÚLIO CESAR RODRIGUES é advogado e professor em Londrina


