A necessidade de apoio e ordenação ao desenvolvimento de Londrina e região é tão forte e tão antiga que, na esteira das frustrações com as promessas não realizadas da Região Metropolitana, as pessoas têm se agarrado a qualquer proposta, por mais primitiva que seja. É preciso propor algo decente, com urgência, para evitar que ideias simplistas e sem embasamento técnico prosperem e tenhamos em breve mais problemas e um ‘‘desenvolvimento’’ à base de projetos malfadados.
  É o caso da atual proposta do chamado ‘‘Arco Norte’’, um desenho simplório feito sem diagnóstico prévio, ignorando questões logísticas, sociais e ambientais. Como a ideia tem sido mascateada em vários setores da sociedade e tem encontrado respaldo, graças ao vácuo de propostas integradas para o desenvolvimento regional, é preciso substituí-la, imediatamente.
  A atual proposta do Arco Norte parte de uma ideia de desenvolvimento comprovadamente errada: concentrar estruturas de logística pesada dentro de um arco de zonas urbanas em expansão e de um celeiro de serviços ambientais, inclusive mananciais de abastecimento de água. Depois dos primeiros questionamentos, um amontoado de palavras de ordem e intenções ambientalóides, espertamente chamado de ‘‘eco qualquer coisa’’, passou a servir de porta-bandeira ambiental e tenta disfarçar a forma como o ambiente e a sociedade foram ignorados no ‘‘projeto’’ atual.
  A concentração de tráfego aéreo pesado próximo a zonas urbanas, não bastassem as dificuldades hoje enfrentadas pelo Aeroporto de Londrina, se somaria a uma malha de rodovias convergindo próximo às cidades, prenunciando gargalos de tráfego e insegurança. Vivemos hoje os problemas da falta de planejamento realmente inteligente do passado, materializada nas rodovias lentas e inseguras que circundam Londrina, e na nossa versão reduzida do aeroporto de Congonhas, que somente pelo tráfego limitado esteve a salvo de um acidente grave.
  Não bastasse, comprometem-se os últimos espaços habitáveis do município, fontes de água e áreas verdes insubstituíveis, entre elas o Parque Estadual Mata dos Godoy. O aeroporto proposto e as suas estruturas ficariam literalmente colados ao Parque, num abraço de morte incompreensível. Não é aceitável pensar em compensação financeira para essas perdas.
  Em lugar de um polo de desenvolvimento centrípeto e implosivo, propomos o aproveitamento de grandes vazios demográficos e ambientais relativamente próximos a Londrina, e a inclusão generosa de outros municípios, barrados no clube do atual Arco Norte, e que estão à míngua há décadas, a exemplo de Sertanópolis, Porecatu, Primeiro de Maio, Alvorada do Sul, Bela Vista do Paraíso, entre outros.
  O novo Arco Norte precisa ser centrífugo, distribuindo o desenvolvimento nos municípios vizinhos, evitando estruturas perigosas próximas a ativos ambientais e aglomerados urbanos, e criando sinergias positivas com outros polos, como Maringá e o oeste de São Paulo. Vale ressaltar que pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina e do Instituto de Pesquisas Espaciais já estão trabalhando na alternativa.
  Felizmente, a sociedade está mobilizada e ainda é possível corrigir rumos. Os políticos e outros gestores empenhados com a atual ideia precisam analisar com discernimento e considerar as mudanças necessárias, antes que se gaste dinheiro público com uma proposta inviável e que a região amargue mais uma década sem planejamento com ‘‘P’’ maiúsculo.

JOSÉ MARCELO TOREZAN e LELIANA
CASAGRANDE são, respectivamente, biólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina e geógrafa e gerente do Parque Estadual Mata dos Godoy

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