Nos últimos dias muito tem sido discutido sobre o sistema de cotas nas universidades como uma forma de ''quitar'' ou ''amenizar'' a dívida social que o país teria com os negros. Afinal, com toda a razão, a escravidão é uma situação abominável que, apesar de toda a nossa repulsa, ainda é possível de ser encontrada em alguns recantos do Brasil.
Todavia, partindo-se de uma análise um pouco mais racional da questão, acreditar que com a implantação de um sistema de cotas para o ingresso nas universidades estaríamos (a)pagando essa dívida social secular é uma visão bastante ingênua e pontual, que não leva em conta a real dimensão do problema social (e educacional) enfrentado no país.
Primeiro, porque a dificuldade de ingresso nas universidades públicas vem notadamente da precariedade do ensino fundamental e médio, e isso afeta todos os alunos da rede pública, sejam brancos, negros, índios ou orientais, além do que, o modelo do sistema de cotas seguido, é baseado originariamente no sistema de cotas norte-americano, onde o ensino primário é de qualidade indiscutivelmente superior à nossa e o sistema de ingresso nas universidades leva em conta também o histórico escolar do aluno, não se adequando à nossa decadente realidade educacional.
E, em segundo plano, cabe ainda tentar compreender o que significa subjetivamente essa tal dívida social e o porquê de nossos legisladores sentirem-se (somente agora às vésperas de eleições) ''endividados'' em relação aos negros.
Dessa forma, no meu singelo ponto de vista, acredito que se realmente temos que nos preocupar com as dívidas sociais, devíamos antes de tudo, cuidar das crianças da periferia de nossa cidade, e procurar saber se elas têm chances de ir para escola ou creche, independentemente de suas raças; porque muitos adolescentes vagam pelas ruas, quando deviam estar em bancos escolares; se os analfabetos adultos podem contar a chance um bom posto de trabalho; se os professores (classe marginalizada pelos nossos governantes) estão recebendo o suficiente para trabalhar com dignidade; se há material escolar, merenda e instalações suficientes nas escolas públicas; tudo isso, entre diversas outras reflexões que me levam a acreditar que se estabelecemos cotas para todas as dívidas sociais que o Brasil possui, dificilmente chegaríamos a um estado de completa ''adimplência social''.
De toda sorte, parece que a decisão já está tomada, restando apenas esperar pelas consequências e saber se efetivamente a utilização do sistema de cotas servirá mesmo suficiente para pagar tal dívida.
PRISCILA YUMIKO SAKAMOTO é advogada e mestranda em direito negocial pela Universidade Estadual de Londrina

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