ESPAÇO ABERTO - Dívida e destino do Brasil
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terça-feira, 30 de dezembro de 2003
Rubem Azevedo Lima 
O ex-presidente da República José Sarney, presidente do Senado, afirmou à Folha de S.Paulo ser grave a situação resultante de nosso endividamento público, apesar da concentração dos esforços de 70% dos brasileiros para pagarem os juros e serviços dessa dívida. Segundo Sarney, se tal situação não se inverter, ''estaremos condenados a renunciar ao destino nacional''.
Falou quem sabe. Sarney, na presidência, viu-se obrigado a declarar-se em moratória técnica, para o Brasil respirar alguns meses, que, no entanto, não bastaram para demover os credores externos. Beneficiados pela política econômica draconiana, baseada no dólar e nos juros flutuantes, esses credores aproveitaram as imposições da potência vitoriosa na Segunda Guerra e exportaram a inflação de 446% , dos EUA, entre 1956 e 1994, para os países devedores.
Tivemos também problemas, decorrentes de opções erradas e suspeitas, como a alienação de estatais ao capital externo, vendidas, como a Vale do Rio Doce, por R$ 3,338 bilhões. No entender do brigadeiro Sérgio Ferola, ex-ministro do STM, seria esse, quando muito, ''o preço do barracão daquela estatal, erguido em cima de jazidas estimadas em muitos bilhões a mais de dólares''.
De 1991 a 1996, privatizaram-se 44 estatais por R$ 13 bilhões, dos quais R$ 10,4 bilhões não passavam de ''moeda podre'', títulos públicos aceitos pelo valor de face, na compra, mas avaliados em menos de 10%, no mercado. Dinheiro de fato, nessas operações, foram só R$ 2,6 bilhões. Pagamos, de 1980 a 1993, em amortização e juros da dívida externa, hoje estimada em US$ 250 bilhões, exatamente US$ 195,3 bilhões! Tudo em dinheiro vivo. Como é que pode?
Pois o busílis assustador de nossa economia é a dívida interna, agora de cerca de R$ 800 bilhões, mas que, ao final do quadriênio Lula, ainda que a paguemos regularmente, estará perto de um trilhão de reais!
A rigor, Sarney abriu o debate sobre tais dívidas, que bloqueiam nosso desenvolvimento e ameaçam a soberania nacional. Lembrou ele, ainda, que além desse perigo, nossa democracia enfrenta outro desafio, o das medidas provisórias, sinete vergonhoso de absolutismo, que mancha a ordem política e jurídica do país.
Resolver tais problemas seria bom presente ao Brasil e à nossa democracia, em 2004, para fazer Lula e os brasileiros chorarem, mas de rir de alegria, pelo reencontro do país com seu destino.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


