ESPAÇO ABERTO - Diversão ou realização?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 2003
Abraham Shapiro 
''Acabou a diversão'' (Schluss mit Lustig, Eichborn Verlag) é o título do livro que foi lançado pela alemã Judith Mair que tenta implodir todas as teses que defendem que o ambiente de trabalho deve ser prazeroso. Ela é dona da agência de publicidade Mair and Others, de Colônia. Na entrada da agência tem uma faixa que diz: ''Aqui não há lugar para quem pensa que trabalho é bom e divertido''.
A tese da publicitária baseia-se, principalmente, na condenação do trabalho em equipe. Segundo ela, essa idéia leva os funcionários a pensarem que outra pessoa vai fazer o trabalho deles.
Seu livro indica como regras básicas para a implantação de seu modelo coisas como a obrigação de todos desligarem o celular durante o expediente, limpar a mesa no final da jornada, proibir que as conversas pessoais durante o expediente se estendam por mais de cinco minutos, além de desestimular relações de amizade no ambiente do trabalho. Em contrapartida, decreta: ''Só se trabalha de segunda a sexta-feira das 9 às 17h30. É proibido levar trabalho para casa.''
Suas declarações acusam o que ela chama de ''modelo norte-americano'' como responsável pela confusão entre vida pessoal e trabalho, o que, no final das contas, torna-se a principal causa da onda de estresse mundo afora.
Independentemente de estar certa ou errada, para mim o que deve ser discutido antes de tudo é: O que é a razão de viver das pessoas? Será o seu trabalho? Será a vida em família? A vida social? O status? Uma coisa todos sabem: é impossível desvincular o interior quando desempenhamos qualquer tarefa. Onde estivermos, tudo o que somos, nossos problemas, acertos e erros, virtudes e, mais importante, nossa espiritualidade, estarão conosco.
Não vejo inteligência em exigir que as pessoas suprimam seu desejo natural de sentir prazer no local onde trabalham e, assim, torná-lo bom e agradável.
Vejo-me inclinado a condenar este radicalismo retrógrado da mesma forma que também condeno a permissividade escandalosa - aquela que faz do ambiente de trabalho uma trágica e improdutiva festa regada a centenas de e-mails de piada, bate-papo via Internet, palestras de contos da Carochinha a título de ''educação corporativa'' etc.
Quando realizamos, há seis meses, um treinamento inédito com setecentos colaboradores de uma indústria de defensivos agrícolas em Londrina, demonstramos o equilíbrio que se deve buscar entre trabalho sério e objetivo e o ambiente propício à prática da espiritualidade e da boa convivência. Os resultados obtidos foram a melhoria nas relações humanas e, para satisfação de todos, na produtividade. Resultados como este e outros já noticiados permitem constatar a inegável necessidade do ser humano encontrar satisfação e prazer no trabalho, assim como na família, na religião e onde quer que esteja.
A situação econômica mundial força a empresa a uma recontextualização de toda a sua estrutura. A gestão de pessoas é uma área que terá de acompanhar as novas tendências. Contudo, fazer do resultado financeiro e da superação de limites individuais de produtividade ''marcas olímpicas'' a serem superadas por meio de decretos e frases de ordem é, no mínimo, um ato de insanidade despótica e, como a prática irá demonstrar, completamente inócuo. Aí estão os modelos nazista e soviético que não me deixam mentir.
ABRAHAM SHAPIRO é consultor na área de Treinamento e Desenvolvimento de Pessoas


