ESPAÇO ABERTO - Dilemas do poder
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de agosto de 2003
René Ruschel 
Passado o semestre da euforia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa a enfrentar os dilemas do poder. Basta olhar a primeira página de qualquer jornal para ver estampado o retrato do País. O Movimento dos Sem-Terra (MST) tem promovido uma série de invasões em propriedades rurais, prédios públicos, saques a caminhões ou acampado à beira de rodovias que servem como ante-sala para novas ocupações.
Em São Paulo, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupa edifícios e terrenos vazios a fim de exigir do governo uma política de habitação popular. Os servidores públicos reagem contra a reforma da Previdência; os membros do Poder Judiciário afirmam que vão defender seus salários e privilégios ''até a medula, com ou sem a compreensão da opinião pública''.
No outro lado do balcão estão os empresários, inclusive alguns que apoiaram Lula durante a campanha, pedem a redução das taxas de juros; ruralistas mantêm milícias paramilitares a fim de defender suas propriedades e o otimismo de alguns investidores estrangeiros em relação ao Brasil começa a cair. Sem mencionar os problemas crônicos herdados de governos anteriores como desemprego, violência, fome, saúde, educação, entre outros. O difícil é saber, dentre todas estas mazelas, o que é causa e o que é efeito.
Vista sob esta ótica, constata-se que no Brasil as questões sociais se arrastam há décadas - para não falar em séculos - sem que houvesse qualquer tipo de vontade política por parte das autoridades em resolvê-las. A reforma agrária por exemplo, é tão velha quanto à própria história. Desde os antigos romanos, os gregos, passando pela revolução francesa e parando na Meca do capitalismo mundial, os Estados Unidos, todos tiveram a preocupação em implementar uma política fundiária que garantisse aos mais pobres as condições mínimas de sobreviver com dignidade.
Aqui, para agradar aos áulicos da corte, a solução encontrada pelo rei de Portugal, em 1534, foi dividir o País em 14 capitanias hereditárias e doá-las aos amigos do peito. Estava fundada a república dos privilégios, que depois ''evoluiu'' para as sesmarias, ao coronelato nordestino, a política do café-com-leite até chegar ao estágio atual de fome, miséria e concentração de riqueza.
A vitória de Lula deu-se justamente pela expectativa de mudar este panorama. Aliás, não se pode negar que ele tem demonstrado disposição para tanto, mas infelizmente apenas vontade não basta. Também é preciso reconhecer que alterar este quadro em pouco mais de 180 dias é uma missão impossível. Acontece que o PT, como todos os partidos, prometeu durante a campanha tirar o País do caos em quatro anos, criando com isso uma enorme expectativa. Mas até agora não houve um projeto que vislumbre resultados palpáveis no curto prazo.
A credibilidade do presidente permanece incólume, mas o governo não demonstra a mesma eficiência do timoneiro. Quando Lula pede compreensão e paciência à sociedade, é necessário que entenda também que o povo cansou de levar chibatada no lombo, de ser massa de manobra, de ser enganado por discursos populistas, além do que, a crise, em toda sua extensão, exige medidas urgentes. Felizmente a esperança ainda é maior que o medo.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


