Nos últimos dois anos, temos constatado uma anomalia no mercado brasileiro com relação aos parâmetros dos preços do concreto praticados no mercado internacional. Isso acontece pois o custo do concreto é composto basicamente de serviços, impostos, margem de lucro e o somatório dos insumos componentes do concreto (cimento, areia, pedra e outros). Historicamente, esses materiais representam cerca de 60% do preço de venda, oscilando para mais ou para menos, em torno de 3%. Porém, temos observado uma distorção muito grande nesse parâmetro e uma elevação de custo da matéria-prima (insumos) à casa dos 70% a 80%.
O principal custo do concreto é o cimento, representando, no modelo clássico, em algo entre 28 a 32%. Embora o preço do cimento nos últimos meses tenha se mantido estável, os aumentos em momentos anteriores foram significativos.
A distorção está tão absurda que só o custo da matéria-prima chega, às vezes, a ser superior ao que se está pagando pelo metro cúbico de concreto. Sem considerar serviço. Levando isso a uma escala macro, podemos auferir o impacto causado na cadeia construtiva. O setor concreteiro movimenta cerca de R$ 2,5 bilhões/ano, sendo que 60% desse valor representa simples transferência de material. Tendo em vista que alguns grupos têm na sua estrutura, produtoras de cimento, pedra ou areia, o repasse desses materiais entre essas empresas é feito ao preço de custo.
Embora seja esta uma operação legalmente permitida, a estratégia tem gerado uma diferença de preços acentuada, pois as concreteiras desses grupos têm condições de exercer preços do concreto bem mais baixos, tirando a competitividade das demais prestadoras de serviços de concretagem. Esta prática, sem dúvida, prejudica o mercado.
O Sinescon Sindicato Nacional das Empresas de Serviços de Concretagem que conta com mais de 40 associados, de um total de cerca de 100 concreteiras no País, também está desassossegado com a previsão do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), de que a produção brasileira de cimento pode cair para 34 milhões de toneladas este ano.
Desde 1999 a indústria cimenteira opera em queda. Baixa na produção desse insumo implica redução do fornecimento, o que obriga as concreteiras a adquirirem o cimento disponível, aumentando seus custos. Outra oneração importante na construção civil ficará por conta do aumento de 3,65% para 7,6% na alíquota da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins).
O Sinescon, que foi criado para defender os interesses específicos do setor concreteiro, pretende atuar de forma mais ágil e abrangente junto aos outros sindicatos e ao governo. Nossa opinião é de que, em algum momento, o setor vai ter que se ajustar e quando isso acontecer, haverá uma correção automática para a realidade ora distorcida. Nossa previsão é que o mercado brasileiro, não só da construção civil, termine o ano cerca de 8% menor do que o ano passado, bem longe das expectativas e otimismo de crescimento.
GERSON S. PAPA é consultor técnico da presidência do Sinescon.

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