ESPAÇO ABERTO - Dia do Professor: uma reflexão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de outubro de 2004
Lygia Pupatto 
Hoje, Dia do Professor, todos estão dizendo muitas coisas belas e importantes sobre esta profissão. Não vou evitar, aqui, um certo tom confessional, para tentar acrescentar novidades ao que já foi dito.
Se fosse ouvir meu DNA sindicalista, defenderia mais uma vez a melhoria dos salários e das condições de trabalho aos professores. Nada mais justo e adequado. Necessário, mas não suficiente.
Gostaria de tentar olhar um pouco mais de perto o mundo dos professores, tentar entender questões que me intrigam, ao longo de muitos anos de profissão. Por exemplo, ao abrir os jornais, podemos observar claramente: ninguém fala mal de professor. Na verdade, não precisamos sequer abrir os jornais, basta conversar com as pessoas na rua: ao falar sobre o professor, toda palavra pesa; existe um certo respeito subliminar, uma mistura de carinho e intuito de preservação, uma reverência incomum nos dias atuais, tão bicudos e agitados. De onde vem isto?
Podemos pensar, de modo simplificado, que professores são formados para gerar e transmitir conhecimentos. Um ofício nobre, como muitos outros. Conhecimentos gerados, entretanto, nem sempre são bem-vindos, como mostra nossa história passada e contemporânea. Quanto à transmissão destes conhecimentos, é razoável supor que existam bons e maus profissionais, como de resto em qualquer outra profissão.
Estas questões são ainda mais intrigantes se observamos que este ofício é um dos mais estressantes, como mostram estudos da medicina, e ao mesmo tempo, um dos ofícios que trazem mais satisfação pessoal, ao longo do tempo, para quem o exerce.
Se não deslizamos para o senso comum, do ''sacerdócio'' da visão judáico-cristã, ou do ''lapidar do espírito'', na descrição parnasiana, ficamos um pouco sem referência. Se olhamos para o Oriente, vemos que estes sentimentos em relação ao professor são ainda mais profundos. Se olharmos para as nações ricas do hemisfério Norte, bem, ali está o berço do iluminismo. Portanto, esta espécie de autoridade moral dos professores não é sequer um privilégio da nossa recente civilização subtropical.
Não tenho a resposta para minhas perguntas, mas tenho uma intuição. Este comportamento social vem um pouco de nossa própria impotência para, sozinhos, cuidarmos de ter um mundo mais humano e mais justo. É como se disséssemos: professores, cuidem de nossos filhos para que possam ser melhores do que nós mesmos; cuidem de formar nossos dirigentes, para que possam construir um país melhor. Se é assim, posso então continuar dizendo, com orgulho, que sou professora.
LYGIA PUPATTO é reitora da Universidade Estadual de Londrina


