ESPAÇO ABERTO - Deuses descendo do Olimpo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de julho de 2003
Walmor Macarini 
Tento imaginar os deuses em greve. Difícil conceber. Porque eles estão acima de razões reivindicatórias. Não há como imaginá-los adotando comportamento de mortais. Mas está no noticiário que pode ocorrer de os vermos em estado de greve, esse abominável costume dos humanos.
Penso os juízes como os deuses. Portanto acima de comuns reivindicações. Irão me dizer que juízes são cidadãos como os demais, mas se eu ficar convencido disso verei frustrado meu encantamento, com uma sensação de caos e de ruptura. Não desejo a condição de julgador de juízes. Seria como o cometimento de um sacrilégio, como se estivesse julgando os deuses.
Não consigo configurar como constitucional ou inconstitucional a atitude de deuses, pois não há como enquadrá-los em princípios da lei impura dos homens. Imagino que a transposição que faz do homem linear um juiz é como a passagem de um portal, que o introduz numa espécie de reino. Porque a um juiz é conferido o poder de julgar as ilicitudes humanas, e a ninguém mais foi outorgado esse atributo. Nem mesmo Deus o desejou, já que concebeu livres os homens, para livremente arbitrarem e livremente agirem, deixando a cada um a responsabilidade de seus atos.
Se os deuses agora se precipitam em queda e descem aos baixios terrestres, sinto-me desguarnecido e inseguro e temeroso de que eles não consigam, depois, a ascensão de retorno com a mesma leveza de que eram dotados. Já não serão os mesmos. Ficarão mais densos, qual acometidos do pecado original.
A iminência de greve dos juízes estaduais soa preocupante, como o prenúncio de uma quebra de ordem e um desabar do Olimpo. Não é uma coisa boa. Imagino que durante o período de greve também os delitos humanos aí ocorridos devam ficar inimputáveis, eis que a situação caracterizará regime de exceção, pressupondo-se que cesse igualmente a vigência das normas institucionais. É livre pensar isso, tão absurdamente quanto uma greve de deuses.
Como o trincamento de um cristal, que não mais se recomporá.
Há no ar um inquietante soar de trombeta, como o mau sinal de revolta dos deuses e contra os quais faltem instrumentos de contenção, pela intocabilidade de que são ungidos.
Imagino que os deuses devem servir-se de todas as coisas que lhes aprouver, e cumpre provê-los, permitindo-lhes beber de todas as fontes, como se servem os deuses. Nada além do necessário. Como é próprio do comportamento dos deuses.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


