ESPAÇO ABERTO - Dengue: mobilizar para enfrentar
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de março de 2011
Alexandre Padilha 
Após mais de duas décadas de convivência com a dengue, poucos se dão conta da complexidade desta doença, um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. No nosso país, 80% da população vivem em áreas de clima tropical. Some-se a isso o crescente adensamento populacional nos centros urbanos, a ocupação desordenada do solo e a manutenção de certos problemas de infraestrutura - como o abastecimento irregular de água e a oferta precária de coleta e tratamento de esgoto em alguns municípios; e tem-se um cenário altamente favorável à reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.
Quando chega o verão, com as chuvas e altas temperaturas, a situação se agrava e o risco de epidemias de dengue volta a assombrar os brasileiros. Prova disso é que, somente na última década, o Brasil viveu três grandes epidemias, nos anos de 2002, 2007 e 2008.
Não por acaso, a dengue foi tomada como prioridade do Ministério da Saúde no início de 2011 e seu enfrentamento exige uma abordagem que envolve diversos setores. Lidamos com um inseto que vive dentro das casas das pessoas e que se adapta facilmente às condições mais diversas para a sua reprodução. Temos à frente um desafio, que é o engajamento de vários outros setores e - em especial - a mudança de comportamento da população, para que adquira o hábito de eliminar todo e qualquer possível criadouro do Aedes aegypti nas residências.
O Ministério da Saúde tem agido como protagonista de uma nova estratégia de combate à dengue, no começo do governo Dilma Rousseff. Pouco mais de dois meses após o início desse movimento nacional, é possível fazer uma avaliação preliminar. Com o primeiro passo, em 11 de janeiro, quando a presidente convocou 13 órgãos do governo federal, reforçamos a prevenção e o engajamento de diversos setores da sociedade.
Ainda em janeiro, divulgamos o mapa de risco da doença para o verão de 2011, que revelou situação de alto risco de epidemia em 16 estados brasileiros. Elegemos 70 municípios prioritários, com base em critérios populacionais, índice de infestação pelo mosquito e incidência de casos de dengue no último trimestre de 2010. Editamos a portaria 104/2011, que determina a notificação em até 24 horas dos casos graves e das mortes suspeitas por dengue. Além disso, intensificamos as ações de comunicação e de mobilização popular, em todo o país - incluindo reuniões, em Brasília, com lideranças religiosas e representantes da iniciativa privada.
Passados pouco mais de dois meses desde o início do ano, o Brasil enfrenta, até o momento, um verão com números menores de casos clássicos, casos graves e mortes por dengue. Embora as informações de que dispomos ainda sejam preliminares, elas apontam para uma diminuição nos casos da doença, no comparativo entre os meses de janeiro e fevereiro de 2011 e de 2010.
No entanto, o momento não é de comemorar. Há municípios que já enfrentam aumento de casos e situação epidêmica, como Londrina, no Paraná; Manaus, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre. Nesses locais, consolidamos nosso papel de apoiar os gestores estaduais e municipais de saúde, por meio do reforço no envio de equipamentos, insumos, medicamentos e recursos financeiros.
Temos ainda um longo verão à frente, principalmente no Nordeste, onde os casos de dengue tendem a aumentar a partir do mês de março. Se, por um lado, o esforço de mobilização demonstra a possibilidade de alcançarmos resultados positivos, por outro, sabemos que o enfraquecimento das medidas de prevenção pode, rapidamente, concretizar o mapa de risco anunciado no início de janeiro. A hora, portanto, é de reforçar ainda mais a mobilização de toda a sociedade no enfrentamento da dengue.
ALEXANDRE PADILHA é ministro da Saúde


