ESPAÇO ABERTO - Democracia, a eleição e o voto
Democracia, a eleição e o voto
Francisca Verginio Soares
No dia 3 de outubro, um domingo, 120 milhões de brasileiros, ou 67% da população, estão aptos a eleger prefeitos, vice-prefeitos e vereadores nos 5.561 municípios do país. Serão 400 mil candidatos a disputar cerca de 70 mil vagas. Quando se trata de voto, escolher o melhor candidato custa o mesmo que optar pelo pior possível. Não há diferença para o eleitor. O voto é gratuito. Portanto, é este o momento de escolher com rigor extremo, analisar dado por dado, comparar de todas as formas para que o nome seja alguém em quem realmente se acredite e se repute responsável. Estamos cansados de saber que, embora gratuito, o voto às vezes custa muito caro para nós.
Contabilizados malversação de verbas públicas, fraudes, corrupção, proliferação de benefícios em causa própria e outros ralos, o quanto temos sustentado de bandalheiras ultrapassa o limite do bom-senso. Para diminuir a corrupção, é bom que cada cidadão pense bem antes de eleger uns ou outros.
Basta ser menos irresponsável na hora de votar. Quem se lembra do nome do vereador em quem votou há quatro anos? Então, desta vez anote. E evite o voto na legenda. Embora legal, ele permite que entre na Câmara quem jamais deveria passar pela porta, tal a falta de formação ou a deformação. Para o Senado, pode ser aceitável. Para a Câmara dos Deputados, a lista de opções é mais restrita. Mas entre vereadores, ou o eleitor tem consciência do nome e sobrenome, além do partido, para cobrá-lo e fiscalizá-lo, ou continuará a dar emprego para inúteis ou, pior, gente sem moral para representar quem é decente.
Se mais uma vez receber aquele candidato que de quatro em quatro anos aparece fazendo promessas sem jamais realizar, esqueça. Se for alguém que teve aprovado algum projeto útil à sociedade, conseguiu sanar problemas básicos, principalmente aos setores mais carente, que continue a ser eleito e cobrado das realizações. Se cumpre um papel que deveria ser do Estado, o erro não está nele ou nos eleitores, mas na omissão de quem não cumpre o dever.
O direito do voto deve ser exercido com consciência, com a certeza de que se está determinando o futuro de uma cidade, de um Estado, de uma nação. Hoje a média de votos nulos ou em branco é mínima se comparada a índices verificados em eleições anteriores. Sinal de que o eleitor brasileiro cada vez mais tem noção do papel que exerce no processo político. Os mais céticos discordam, mas só assim se trilha o caminho da consolidação da democracia. No Brasil, ela ainda é muito jovem, tem apenas 30 anos e certamente teremos que experimentar vários pleitos até vê-la de fato efetivada. Isto se dará quando o valor igualdade social tiver o mesmo peso que o valor liberdade.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é doutora em Ciências Sociais e professora de Sociologia e Ciência Política na Uninorte em Londrina
Olimpíadas: festa de países ricos
Alexandre do Espírito Santo
Qualidade de vida de uma família certamente está associada com o volume de ganhos mensais dela. A de um país não é diferente, quanto mais pobre um país menor a qualidade de vida geral do seu povo. Com baixa qualidade de vida geral num país, menor número de seus cidadãos pode dedicar-se a esportes. Quanto menor o número de esportistas o país possui menor a chance de excepcionais nos esportes. Sem excepcionais, um país não conquista medalhas nas olimpíadas, em que países ricos e pobres competem como se tivessem as mesmas chances.
Esse pressuposto de igualdade de condições físicas e técnicas nas olimpíadas é falso. Membros de países de alta qualidade de vida têm mais chance de medalhas em qualquer modalidade. O que torna os jogos democráticos em princípio, mas tendenciosos na prática, pois países ricos produzem e sustentam maior número de atletas excepcionais. Estes fazem o ponto que falta no último momento para vencer.
Alguns indivíduos de países com baixa qualidade de vida podem ter atributos de excepcionais e ganham algumas medalhas, mas exceções são exceções. Não se ganha mais de duas ou três medalhas com exceções. Além disso, dado o grande número de competições numa olimpíada, países ricos têm maior número de atletas em cada um deles. A seleção dos melhores para cada jogo se torna um ipso facto, aumentando as chances; e os rios não contrariam a natureza, correm para o mar.
Pode ser que haja uma correlação positiva significativa entre o PIB e o ganho de medalhas em olimpíadas, assim como também está associado com qualidade de vida. Os oito países nestas olimpíadas com maior número de medalhas de ouro têm um PIB de aproximadamente US$ 1 trilhão. O PIB do Brasil está crescendo, mas ainda falta bastante para essa marca.
Entretanto, essas linearidades nem sempre têm alta capacidade de predição, como quaisquer outras descritivas de atributos humanos. As curvilinearidades acontecem quando habilidades pessoais de atletas desigualmente desenvolvidos em países não-ricos entram em jogo. Todavia, são raras. Acontecem mais vezes nas competições em que o talento pessoal independe de outras assimetrias socio-psicológicas, tais como: DNA monolítico, nutrição, estabilidade emocional, autoconfiança, energia prolongada, flexibilidade espontânea, concentração fácil, e destemor de fracassar ou perder.
É claro, queremos prestigiar atletas do nosso país, ainda que com um fabricado otimismo e condescendente complacência. Suas falhas e imprecisões nos momentos de decisão são compreensíveis à luz dos raciocínios aqui feitos, mas não são desculpáveis pelos rebentos emocionais de um momentoso patriotismo. É importante para a edificação pessoal continuar estimulando e até amando quem se esforçou para ganhar, mas é falso elogiar quem perde.
ALEXANDRE DO ESPÍRITO SANTO é professor PhD em metodologia de pesquisa científica em Londrina





