Nações, religiões e até famílias buscam legitimar, por um passado suposto, seu presente desejado, utilizando-se de um recurso que chamamos ''uso da História'': se aquilo que de fato aconteceu não é o que se deseja, inventa-se um outro passado... É para isso que funcionam mitos e símbolos, como hinos e bandeiras.
Os mais velhos haverão de se lembrar de uma série de atividades assim chamadas ''cívicas'' que permeavam a vida dos estudantes há mais de quarenta anos. O regime militar, instaurado em 1964, levou esse ''civismo'' ao extremo, diminuindo as aulas de História e criando uma aberração típica de ditaduras chamada ''Educação Moral e Cívica''.
O conceito era inculcar aquilo que os militares e seus aliados consideravam moral e civismo, com destaque para a comemoração dos feitos de Caxias e do aniversário do que chamavam impropriamente de ''Revolução'' de 31 de março.
A imposição criou tal antagonismo que só puxa-sacos descarados do regime vigente se submetiam ao ridículo de desenvolver o programa ''sugerido''. A tentativa de militarização do civismo resultou na negação do próprio civismo, tido e havido como coisa de militares reacionários e chauvinistas.
Hoje temos que admitir que, com todos os defeitos que possam ter tido, figuras como Tiradentes e José Bonifácio dedicaram grande parte do seu tempo e energia em favor de interesses coletivos e podem voltar a funcionar como elementos do nosso passado comum (e a consciência do passado comum é que identifica os cidadãos de uma nação).
Claro que junto a esses devemos trabalhar com figuras igualmente significativas como Zumbi, Anita Garibaldi, elementos representativos das culturas indígenas e dos imigrantes que ajudaram a construir este país, assim como gente da cultura tipo Carlos Gomes e Villa-Lobos, Machado de Assis e Graciliano Ramos, e por aí afora.
Exaltar nossos heróis, oferecê-los como traço positivo de união e motivo de orgulho não precisa ser algo que ofenda a História: é só não confundir Estado e governo.

JAIME PINSKY é doutor e livre docente pela Universidade de São Paulo e professor titular da Unicamp (Campinas)

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