ESPAÇO ABERTO - De Deodoro a Lula
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de novembro de 2003
Valmor Bolan 
O 114º aniversário da proclamação da República nos leva a refletir, mais uma vez, o sentido da gestão pública em nosso país. É evidente que demos avanços, em muitos aspectos. Mas falta muito ainda o que fazer para que o Estado brasileiro cumpra efetivamente sua função social, no regime político em constante aperfeiçoamento.
A primeira fase do Brasil republicano ficou conhecida por República Velha, e durou até 1930. Não houve mudança significativa nas estruturas sociais do país. Mudou o regime mas o poder ficou concentrado nas mãos de oligarcas latifundiários. Paulistas e mineiros se dividiam no governo, na chamada política café com leite. Foi o período áureo do café, esgotado em 1929, como consequência da quebra da Bolsa de Nova York (a primeira grande crise do capitalismo).
Abalado por tão dura crise econômica (já que os Estados Unidos reduziram sua compra de café brasileiro), os oposicionistas da República Velha (liderados por Getúlio Vargas) sentiram que era o momento de assumir o controle do país, tomando o poder através do golpe de Estado, protelando a nova constituição e, enfim, implantando a ditadura do Estado Novo, que só terminou em 1945, porque os aliados venceram a guerra e exigiram a democracia como regime de governo. Não houve ambiente para prosseguir com a ditadura.
No entanto, a primeira experiência democrática brasileira durou pouco tempo: de 1945 a 1964. Nesse período, o Brasil ficou perplexo com o suicídio de Vargas (em 1954) e a renúncia de Jânio Quadros (em 1961). Com a pressão por reformas de base, que clamavam por justiça social, depois das rápidas mudanças culturais do pós-guerra (explosão demográfica, industrialização e expansão urbana, inserção da mulher no mercado de trabalho e advento das novas tecnologias de informação), o Brasil foi sentindo a necessidade de transformações estruturais, e temia que tais mudanças se consolidassem com violência, a exemplo do que vinha acontecendo em outras partes do mundo.
Veio então o golpe de 1964, e a interrupção do processo democrático. O regime militar durou tempo demais. Foram 20 anos de arbítrio, perseguições, estrangulamento das liberdades democráticas, com efeitos bastante negativos.
Mas, a partir de Geisel, e depois com o general Figueiredo (que aprovou a anistia, em 1979), o Brasil foi se preparando para viver sua nova fase democrática, iniciada com a eleição de Tancredo Neves para presidente, em 1985. De lá para cá, e, principalmente com a promulgação da nova constituição em 1988, o Brasil foi se amadurecendo e vivenciando várias situações que comprovaram o vigor da nova democracia.
Testado, o povo brasileiro ia construindo as novas possibilidades, pela via do voto, até que pôde - graças à força da democracia - superar a instabilidade econômica (com a implantação do Plano Real em 1994), e criar as condições para as reformas constitucionais que foi tornando o Brasil uma voz cada vez mais respeitada no contexto internacional. E então, chegamos ao atual momento em que assistimos a eleição do primeiro presidente operário do país, num caso inédito em 500 anos de história. Com a eleição de Lula, o Brasil republicano mostrou maturidade política, estando pronto, portanto, para os avanços necessários para que se afirme como nação próspera, com desenvolvimento sustentável.
Precisamos agora da reforma política, com a implantação do parlamentarismo, do voto distrital, etc., para o pleno amadurecimento da nossa democracia. A República brasileira só encontrará seu esplendor com a reforma política, que, no momento, sentimos ser possível realizá-la. Torçamos para que isso aconteça, o quanto antes, para o bem de todos.
VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e diretor-geral da Faculdade Editora Nacional em São Caetano do Sul (SP)


