ESPAÇO ABERTO - Crueldade ou transtorno mental?
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de agosto de 2010
Sabrina Camargo Silva Leva e <Br>Silvana da Silva Santos 
A FOLHA DE LONDRINA publicou recentemente a reportagem ''Transtornos mentais avançam sobre infância'' (Geral, pág. 9, 11/07) a respeito do aumento de casos de transtornos mentais em crinças, fato que nós, enquanto profissionais da educação, já havíamos constatado em nosso cotidiano profissional e nos meios que frequentamos. Esses problemas têm raízes nos primeiros anos de vida. Não é subitamente aos 12 anos que o indivíduo começa a apresentar problemas. Como afirmou o ministro da Saúde José Gomes Temporão, ''é preciso evitar que a doença se instale no desenvolvimento emocional primitivo do indivíduo, nos primeiros estágios de vida. Isso tem muito a ver com evitar o transtorno mental quando esse bebê se tornar jovem e adulto''. Desde os primeiros anos de vida a criança sinaliza que algo está errado.
Podemos apontar como sinais de alerta a agressividade, a falta de limites, atitudes sexualizadas que não condizem com a idade da criança e vão além da curiosidade natural, a dificuldade de interagir com o meio social, as atitudes preconceituosas com alguns colegas, a apatia, a crueldade com animais e outras crianças, entre outros, são comportamentos que merecem atenção. Quanto mais cedo for encaminhada para os profissionais adequados, mais chances a criança terá de ter uma vida saudável do ponto de vista psíquico.
E não é necessário estar dentro das escolas para ver que a incidência de problemas como esses vêm aumentando. Basta abrir o jornal, assistir aos noticiários da TV ou escutar a reclamação de vizinhos e pessoas próximas para perceber quão grande é o número de adolescentes envolvidos com drogas e violência. Todos os dias ouvimos mães reclamarem que não conseguem ''dar conta'' do filho, da falta de limite e até mesmo de crianças que enfrentam os pais. O que nos parece é que os pais, mães e educadores de nossa sociedade não estão mais conseguindo educar. O que antes era uma tarefa fácil, hoje é um desafio.
Podemos citar como exemplo o caso Isabella Nardoni e agora as denúncias envolvendo o goleiro Bruno, do Flamengo, que geraram polêmica na mídia e revolta na população recentemente. Claro que no caso dos Nardoni não houve comprovação de que eles tinham algum transtorno mental, e no caso de Bruno as atrocidades que vêm sendo investigadas não foram comprovadas. Porém, nos recusamos a crer que alguém em plena consciência, com qualidade de vida e saudável do ponto de vista mental e psicológico seja capaz de cometer atos tão violentos contra outra pessoa. E se isso for possível a situação é ainda mais grave, pois significa que nossa sociedade está caminhando na direção contrária ao que chamamos de civilização. O casal Nardoni, o goleiro Bruno e tantos outros ''criminosos'' que conhecemos pela mídia já foram crianças e, com certeza, sinalizaram muitas vezes que precisavam de ajuda e talvez não foram ouvidos.
É urgente prevenir esses problemas. É necessário cuidar de nossas crianças desde o berço. É preciso ensinar as mães e pais da sociedade moderna a educarem seus filhos, a dar limites sem serem agressivos, a ensinarem seus filhos respeitarem a vida. É preciso que Estados e municípios se mobilizem para a criação de projetos de prevenção, que ensinem e ajudem os pais nessa tarefa tão difícil.
A prevenção é sempre o melhor caminho e seu custo para Estados e municípios é bem menor do que o gasto com os serviços de saúde mental. Entretanto, mais importante do que pensar no custo é pensarmos no futuro dessas crianças que hoje estão pedindo socorro por meio de seu comportamento ''desajustado''. A prevenção pode evitar que os nomes hoje mais falados nos bairros, nas nossas escolas, nos departamentos de assistência social dos municípios e nos conselhos tutelares estejam amanhã estampados nos jornais e noticiários.
SABRINA CAMARGO SILVA LEVA é psicóloga em Amaporã e SILVANA DA SILVA SANTOS é professora em Paraíso do Norte


