ESPAÇO ABERTO - Crise sistêmica
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de junho de 2012
Manuel Joaquim R. dos Santos 
Como num triste filme déjà vu, Londrina vive momentos de apreensão perante as suspeitas de improbidade e corrupção na política local. Nisso ela não é, infelizmente, alheia ao grosso das suas congêneres brasileiras embora tivesse motivos para sê-lo. Aqui, se não são inéditos os desmandos e as falcatruas, também estão nos anais da história local - e mundial - a capacidade de organização e atuação de suas instituições oficiais e sociedade civil. Em Praga, um movimento londrinense recebeu um prêmio internacional pela luta democrática.
Antigo integrante desse movimento vejo com apreensão a conjuntura atual. Não existem na história puras repetições. Existem lições para estudo e reflexão, e um modus operandi que se afirma em determinadas épocas com causas e consequências determinadas, mas os fatos e os protagonistas sempre escaparão a encaixes e definições simplistas que visem atualizar e repetir façanhas e eventos do passado.
Essa reflexão deve perdurar e ter continuidade sem tréguas, criando na sociedade sentinelas atentos para driblar e evitar situações constrangedoras como as anteriores. Ora, isso infelizmente não é o comum da população brasileira e especificamente da londrinense.
A cidade dorme no ponto há 13 anos. Uma enorme pedra ignorada no Calçadão é o único grito que lembra a necessidade de uma vigilância perene. Ao longo de mais de uma década não se verificou nenhuma novidade administrativa nem mudança substancial no famigerado conceito (bem brasileiro) de governabilidade. Isso sem nenhuma exceção. As notícias vinculadas na imprensa nos dão conta de investigações, bens bloqueados, gente presa, etc. Nenhum ineditismo.
Hoje, Londrina desperta. As entidades cobram resultados nas investigações e vão à rua em forma de protesto. No entanto, vejo nisso algo bem diferente do que observei na minha última passagem pelo Cairo. Lá constatei o que vemos a distância: multidões ocupam ininterruptamente a praça Tahrir, vindos de todas as partes do Egito na sexta-feira (dia santo islâmico) para conquistarem algo mais precioso do que derrubar regime: a democracia. Como me falou o guia, os egípcios não se contentarão com migalhas. Querem derrubar o sistema.
É o sistema que nos mata. É esse jeito de fazer política de corruptos e corrompidos, de compradores e vendedores de votos, de espertos e apáticos, de oportunistas e ignorantes políticos que desdenha e afronta os homens de boa vontade. Contra o sistema só uma luta intrépida e sistemática, vigilante e aguerrida que provoque as mudanças e reformas essenciais e que o tornem mais humano e decente.
Os protestos de hoje não poderão resvalar para o lugar comum nem se deixar eivar de vícios que lhe roubem a legitimidade. As instituições funcionam melhor do que em 1998. A imprensa é bem mais livre de antigas amarras e o Ministério Público tem uma maturidade maior do que naquela época. Portanto, minha apreensão vem do eterno espectro de instrumentalização que pesa sobre as cabeças bem-intencionadas das entidades que sempre responderam positivamente nestes momentos de crise. O momento eleitoral que nos envolve é como um pântano que pode sugar as legítimas e nobres intenções dos guerreiros da moralização da coisa pública.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
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