ESPAÇO ABERTO - Crise ideológica em nossa política
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de abril de 2012
Felipe do Lago Albuquerque <br> 
Nos últimos dias o assunto preferido nos meios de comunicação tem sido a crise política que se instaurou no Congresso Nacional, com os aliados ameaçando se rebelar contra uma suposta falta de diálogo do governo Dilma Rousseff.
O primeiro indício da crise surgiu com a inesperada derrota do governo no Senado Federal, durante a votação da indicação de Bernardo Figueiredo para a presidência da ANTT. Diz-se inesperada porque a história da democracia brasileira demonstra que tais votações são apenas pró-forma, basicamente uma burocracia necessária para cumprir a Constituição.
Mas não se pense que finalmente a ideia original de nossos constituintes tenha sido levada a efeito, tendo o Congresso verificado uma suposta incapacidade do nomeado para o cargo. A desaprovação do nome indicado pela presidente não tem qualquer relação com sua qualificação técnica, mas apenas com uma represália da base aliada por não ter seu apetite por cargos saciado.
E o mais temerário é que não há qualquer receio por parte de nossos representantes em manifestar publicamente as razões desvirtuadas da recente falta de apoio ao governo. Senadores do Partido da República (PR), por exemplo, ao declararem poucos dias após o episódio que passariam a fazer parte da oposição justificaram sua iniciativa pela negativa da presidente em aceitar nova indicação do partido para o Ministério dos Transportes, que administrava antes da queda de Alfredo Nascimento motivada por supostas irregularidades.
Diante de tais constatações, emerge à consciência o questionamento se ainda resta no Brasil ideologia partidária apta a justificar o pluripartidarismo. Com exceção de alguns partidos fadados à baixa representatividade por seus ideais radicais, o cenário político brasileiro deixa evidente que sociais, democratas, trabalhistas, socialistas ou progressistas não passam de meras denominações que designam grupos com apenas dois interesses: usufruir dos privilégios de participar ainda que de forma coadjuvante das engrenagens da máquina pública ou enfrentar as mazelas de se opor à situação visando no futuro assumir o poder.
Tornou-se habitual os partidos fazerem alianças de forma simultânea com outros que ao menos em tese possuem ideais divergentes, simplesmente porque estes se encontram no comando de determinada região e podem lhe conceder privilégios. É a chamada política do adesismo, que por suas ''vantagens'' mina a oposição e atualmente assume proporções preocupantes, apontando as estatísticas que no Brasil atualmente apenas cinco governadores enfrentam oposição significativa em suas assembleias legislativas, de mais de 30% dos deputados.
Diante de tal cenário precário, talvez fosse mais vantajoso retrocedermos ao bipartidarismo, que embora carregue o peso de remontar ao passado autoritário de nossa República, ao menos garante que sobreviva uma força política unida contrária ao governo, essencial para que haja debate de ideias antes da votação das propostas do Executivo, como requer uma verdadeira democracia.
FELIPE AUGUSTO MAZZARIN DO LAGO ALBUQUERQUE é advogado em Rolândia
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