Ainda no calor das manifestações populares, o pesquisador Marcos Nobre (Cebrap) conseguiu filtrar importante diagnóstico deste que é o mais impactante fenômeno social das últimas décadas no Brasil. Sua análise encontra-se no livro recém-lançado, intitulado "Choque de democracia: razões da revolta". A obra delineia as causas da crise política em curso.
Em parte, nos últimos anos, a vida constitucional democrática no País foi impulsionada por eleições regulares, respeitando e fazendo respeitar a legítima alternância de poder. Contudo, as manifestações nas ruas parecem reiterar uníssono que sistema político partidário deixou de lado parte importante da essência democrática: a representação popular. O país alcançou importantes avanços do ponto de vista institucional democrático, mas não conseguiu que o sistema político caminhasse na mesma entoada. A par dessa constatação, Nobre constrói o conceito de peemedebismo para explicar essa blindagem do sistema político contra a sociedade.
Nas "Diretas Já" ocorreu a primeira blindagem, quando o povo saiu derrotado nas ruas. A vitória foi do Congresso Nacional ao impedir que a eleição presidencial ocorresse de forma direta. Na Constituinte de 1988 ocorreu a segunda blindagem por meio do "centrão" com o destacado papel de conter e represar as forças progressistas de diversos segmentos da sociedade. Porém, com o impecheament do presidente Collor, em 1992, as ruas saíram vitoriosas com os jovens "caras-pintadas". A partir daí ficou evidenciado que o presidente havia caído por falta de sustentação partidária. Criou, pois, a convicção da necessidade de amplas coalizações a fim de garantir aquilo que virou mantra na boca dos políticos: a tão visceral "governabilidade".
Os anos 90 conseguiram, aos poucos, consolidar minimamente a vida democrática e a estabilidade econômica. Nesse ínterim, PSDB e PT polarizaram projetos distintos para o país, o que, de forma salutar, permitiu a existência de aguerrida oposição, sobretudo da parte do PT, oxigenando o governo tucano e a própria democracia.
A chegada do PT ao poder representou, para grande parcela da população, a possibilidade de avançar além da estabilidade econômica conquistada no plano real, progredindo na realização dos direitos sociais e, ademais, propondo uma agenda mais progressista ao país. Porém, a oposição ficou diluída em parte por inoperância, sobretudo do PSDB e do DEM, em parte pela escancarada compra de votos no Congresso levada a cabo pelo PT, que culminou no famigerado mensalão.
Governar para o PT significou, a partir daí, abraçar o PMBD, firmando parceria com a ala mais arcaica e atrasada da política nacional. Governabilidade e manutenção de poder fizeram, ainda, que Lula chamasse de companheiros outros tantos, de Collor a Maluf, como condição irrefutável para assegurar avanços sociais ainda que mínimos. Malfadadas companhias bloquearam toda e qualquer possibilidade de o sistema político avançar em demandas que tanto necessita a sociedade. O sistema político passou a girar em falso não representando senão os interesses dos partidos e seus caciques sem ressonância aos apelos da opinião pública.
A participação popular, enfim, ficou politicamente bloqueada, e de forma irônica pelos próprios partidos. Acresce a esse quadro o pífio crescimento econômico, além do fantasma da inflação que ronda novamente o consciente coletivo. E, por último, adicione a criminalização do atual modelo político partidário, levado a cabo pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão. São ingredientes mais que suficientes para alimentar as reações de indignação e de revolta observadas nas ruas. Resta saber se os prognósticos apontados pelos Poderes da República, entre eles a reforma política, restarão suficientes para incorporarem, de vez, a voz do povo ecoada nas ruas.

CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR
é professor de Ética e Filosofia Política
na Universidade Estadual de Londrina.

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