O Brasil tem sido vítima dos pressupostos equivocados de que os juros são o único instrumento para o controle eficiente da inflação e de que o nosso desenvolvimento depende primordialmente da poupança externa. Sob esta ótica, submetemos nossa sociedade a um desempenho incompatível com o seu potencial, e o que é pior, frustramos as esperanças e perdemos a oportunidade de implementar mudanças substantivas, cujo momento mais propício é sempre no início de novo governo.
Forma eficaz e sustentável de controlar a inflação é garantir superávits fiscais apropriados, o que já está sendo feito. Agora o governo precisa alocar estrategicamente seus recursos e melhorar a gestão pública.
É fundamental também apostar no mercado externo. A combinação juro alto e real valorizado é tão prejudicial quanto o engessamento do dólar, praticado do lançamento do Plano Real até o final da década passada.
Baixar taxas de juros e favorecer as exportações, com a alta do dólar, são medidas importantes para dinamizar a economia, mas é preciso fazer mais. Temos que ultrapassar o binômio juros-inflação, para incluir em nossa estratégia elementos como demanda e investimentos, já que a perda do poder de compra do consumidor fragiliza o sistema econômico e provoca retração nos investimentos.
Com os agentes financeiros oferecendo juros acima de 80% ao ano para os cidadãos, fica bloqueada a capacidade de consumo das famílias e congelada a possibilidade de empreendedorismo em micros e pequenas atividades. A retomada do crescimento é imperativo inadiável.
A verdadeira condição de avanço da nossa economia está na expansão da demanda, já que para as empresas investirem não basta o acesso fácil a crédito barato, mas também mercado com capacidade de compra. A realidade é que temos uma imensa massa de cidadãos limitada a um nível muito precário de consumo. O aumento da demanda agregada permitirá inicialmente reduzir os estoques, em seguida a capacidade ociosa, e, gradualmente, levará as empresas a investir, gerando desenvolvimento.
Um caminho seguro nesta direção é a criação de empregos. A dinamização de todas as frentes na agricultura; a construção de casas populares; a criação de cinturões verdes na periferia das cidades ou a organização de infra-estruturas urbanas são alternativas para empregar pessoas pouco qualificadas, gerar renda, aumentar o consumo e enriquecer a base econômica de cada um dos 5.600 municípios do país.
Um aspecto também importante neste processo é a sua organização e financiamento. O Brasil soube construir estradas e hidrelétricas, precisa aprender agora a estimular as iniciativas simples que asseguram pontos simples mas vitais, como um bairro arborizado e seguro, água tratada e crianças bem assistidas. A base da organização deve ser a entidade mais próxima da população, a administração municipal. Ademais, é perfeitamente possível, através do sistema financeiro, organizar de maneira sistemática o co-financiamento local, estadual e federal.
Trata-se de imprimir ritmo a uma economia gigantesca, como é a do Brasil. Se não soubermos responder rapidamente a uma conjuntura que paralisa a economia e satisfazer aos anseios sociais de um povo cansado de esperar, não haverá como cumprir com os compromissos e sustentar sonhos duradouros. O tempo, aqui, é crucial.
RODRIGO C. DA ROCHA LOURES é empresário, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e futuro presidente da Federação das Indústrias do Paraná

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