Mente, intelecto, inteligência, cognição, competitividade, sucesso a qualquer custo. O processo educativo tem supervalorizado o intelecto das crianças em detrimento dos seus corpos. Nos primeiros passos, as escolas mais modernas, renovadoras, dá-se alguma atenção ao corpo e ao contato com o concreto, mas à medida que a capacidade de abstração se amplia o corpo vai sendo deixado de lado como se fosse possível uma educação adequada sem usar o corpo como instrumento de aprendizagem.
É como se a mente fosse crescendo assustadoramente, patologicamente, chegando à maturidade gozando do mais alto saber enquanto o corpo esquálido, infantil permanece eterno repetente se arrastando na pré-escola ou teleguiado apaticamente na frente de um videogame. Geralmente o aluno-papagaio é mais e mais louvado na dependência da sua capacidade de repetir o que o professor fala. O corpo e a criatividade ficam em segundo plano, mas esta não é filha só da mente, mas sim de um todo indissolúvel e integrado. Descuidando do corpo limita-se a criatividade e a possibilidade de alcançar a competência existencial imprescindível na luta por uma vida mais digna e mais responsável.
Aprender é incorporar depois de ruminar. Aprender não é decorar e repetir, mas criar, com base no já ensinado, uma atitude nova e renovadora diante do mundo.
O corpo é a base da identidade, é a partir dele que estabelecemos a noção do eu e é através dele que esta noção se desenvolve vida afora, nele percebemos o mundo e através desta percepção damos conta de quem somos. Só existimos corporalmente e o nosso físico é a base de todo o prazer (mesmo intelectual) e este prazer traz liberdade, criatividade, consciência, assertividade, excitação que são situações assustadoras para a escola porque estes tipos de ''diabinhos'' são inquietos, questionadores, curiosos e atentos, exigentes.
As crianças precisam desesperadamente de limites e referência. Quem ama cuida, mas por outro lado são crianças e não miniaturas patéticas de adultos estáticos e contemplativos. Criança é movimento e movimento é crescimento e prazer. Prédios, casas e escolas viraram jaulas de clones teleguiados! Onde está o quintal?
Madalena Freire diz que ''o educador educa a dor da falta, cognitiva e afetiva, para a construção do prazer. É da falta que nasce o desejo. Educa a aflição da tensão da angústia de desejar. Educa a fome de desejo!'' Dor, prazer, desejo, aflição, angústia, fome são sensações corporais. Aprender exige um corpo presente vivo e inquieto (mas com limites). ''Ensinar e aprender são movidos pelo desejo e pela paixão'', completa Madalena Freire.
Uma sugestão: encorajamento e respeito. Encorajamento para que o aluno mantenha sempre acesa a chama da curiosidade e não perca de vista o prazer de crescer e aprender, de correr, pular, cair, brigar (ou será melhor extravasar imitando as chacinas internáuticas?). Respeito para com as claudicantes tentativas e os muitos erros inerentes a nós humanos. Respeito para com a sua excitação, vivacidade e desejo. A orientação sexual poderá dar suporte afetivo na construção de um indivíduo mais adequado, pois a sexualidade é vital para a construção da identidade. Também, o contato professor-aluno, saber ouvir, ver (mais do que olhar), sentir, emocionar-se com a criança permitindo o crescimento de ambos.
Assim, poderemos apertar as pequenas mãozinhas, abraçá-los, senti-los pertinho de nós, seres que como nós erram e sempre serão imperfeitos, chorar juntos e num cálido abraço lembrar que são seres humanos e não ''clones teleguiados.''
CALVINO COUTINHO FERNANDES é sexólogo em Londrina

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