Em julho, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) aprovou a reserva de 40% das vagas nos cursos para negros e para estudantes da escola pública. As cotas reservadas aos negros que já serão aplicadas no próximo vestibular vêm causando uma reação contrária da população, inclusive, de ação civil por parte de um procurador do Ministério Público Federal que argumenta que a medida fere o princípio da igualdade previsto na Constituição Federal.
O que a lei de cotas tenta instituir é exatamente este princípio constitucional, a noção de oportunidade, que deve estar acessível igualmente para todos em uma sociedade democrática. Mas a linguagem das oportunidades bate de frente com a estrutura secular de privilégios, na qual a sociedade brasileira se assenta e se reproduz. Se observarmos de onde vem a relutância às cotas, ver-se-á que a população que está com medo não é composta pelos mais pobres e nem pelos negros, mas pelas camadas médias que tinham certeza que a universidade, especialmente a pública, estaria à disposição dos seus filhos. Não há dúvidas que boa parte das reações é de preconceito vindo do fato que no Brasil negro pode até ser bacana, porém nunca é inteligente.
O discurso da qualificação do aluno deixa entrever a certeza que as pessoas têm de que aqueles que passam no vestibular são inteligentes (o que não é necessariamente verdade) e que os negros não passam no vestibular porque não têm acesso a uma boa educação. O que justifica a pergunta terrorista: ''Você se consultaria com um médico admitido pelo sistema de cotas?'' Mesmo assim, têm aqueles negros e pobres que passam no vestibular. Então, os que não passam seriam, na verdade, preguiçosos e incapazes. Observe que ninguém discute o viés classista e racista do próprio vestibular e do sistema de mérito que o sustenta - baseado em uma idéia de ''educação de qualidade'', cujos valores são os da elite branca brasileira.
Enfim, o que é lamentável é que não haja reação contrária ou ações cíveis contra uma situação que é chocante nas universidades: do total dos universitários, 97% são brancos sobre 2% de negros, segundo dados do IBGE e IPEA e ainda, dos 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, 70% são negros.
A meu ver, através da política de cotas raciais poderia se vislumbrar a formação das primeiras gerações de negros nas universidades e para que isso ocorra, esta política precisaria prevalecer por algumas décadas teria, portanto, um caráter transitório à medida que fosse visível o equilíbrio entre brancos e negros nos campos universitários. Que a UEL tenha êxito, embora com dificuldades, como outras universidades estão tendo, na implantação desta política, que tem caráter de política pública porque procura atender aos interesses de um público carente e historicamente excluído de um dos direitos civis que é a educação.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Ciência Política em Londrina

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