ESPAÇO ABERTO - Cotas, por que não?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de julho de 2004
Eduardo Di Mauro 
Uma das principais bandeiras do governo federal é a de promover inclusão social para a população brasileira carente. É público e notório que no Brasil temos problemas sociais graves e de longa data, que tendem a piorar salvo uma política direcionada de fato para a solução. Sem dúvida alguma uma das causas evidentes do grande número de excluídos no Brasil está na distribuição de renda, uma das piores do mundo, bastando lembrar do salário mínimo que é inferior a 90 dólares mensais, na mesma ordem de grandeza que os salários praticados em países considerados miseráveis.
A relação entre os maiores salários pagos no Brasil e o salário mínimo pago a grande parte da população é de nos envergonharmos, encontramos salários 100 vezes maiores que o mínimo. Esses números que assustam qualquer habitante do primeiro mundo, ainda não causam indignação nos brasileiros, pelos menos em boa parte daqueles que poderiam atuar no sentido de melhorar a distribuição de renda e dos recursos públicos. Pode-se dizer, sem receio de ser tendencioso, que no Brasil predomina a regra do Robin Hood às avessas, ou seja, transferir de quem tem pouco para quem tem muito.
Tem-se a impressão que esta conduta é comum a vários segmentos da sociedade, inclusive a elite intelectual ou pelo menos grande parte dela, que observa passivamente as injustiças se agravarem no País. Muitos ainda acreditam que o Brasil pode se desenvolver sem resolver de fato os problemas agudos na educação. Outros estabelecem crédito unicamente aos investimentos no ensino médio e fundamental para sanarmos definitivamente nossos problemas sociais seculares. Existem aqueles que têm como verdadeiro, única e exclusivamente, a geração de empregos como saída para as injustiças sociais.
É claro e notório que ninguém em sã consciência defenderia uma política de cotas para o ensino superior público caso tivéssemos as mesmas condições de acesso para todos os segmentos da população. Porém, a heterogeneidade observada no âmbito educacional, econômico e cultural da sociedade brasileira não nos permite falar em tratamento igualitário. Como tratar igualmente indivíduos em condições tão díspares?
A sociedade tem problemas crônicos e é preciso neste momento enfrentá-los com ações a curto e longo prazo. Estabelecer uma política de cotas é assumir as desigualdades geradas e dar um primeiro passo em direção às soluções de curto prazo. Mas isso não basta, é preciso realizar muito mais para que em longo prazo os diversos segmentos da sociedade possam competir em condições de igualdade, pleiteando uma vaga no ensino superior público brasileiro.
A universidade, sem dúvida alguma, tem papel fundamental e deve atuar de forma categórica para a melhoria do ensino médio e fundamental, no sentido de gerar conhecimento, formar recursos humanos e acima de tudo cidadãos, desempenhando plenamente o seu papel na sociedade.
EDUARDO DI MAURO é físico e vice-reitor da Universidade Estadual de Londrina


