Mais importante de que a Lei Áurea foi a decisão do Conselho da Universidade Estadual de Londrina (UEL) na aprovação de cotas na universidade, inclusive a de 20% para os negros. A Lei Áurea, tão comemorada e badalada pela história do Brasil, deixou o negro em pior situação do que antes quando era cativo. O escravo, embora sendo tratado como animal e muitas vezes até em situação pior, por ser propriedade do seu senhor tinha um lugar para dormir abrigando-se na ''Casa Grande de Senzala''. Lá, era alimentado mesmo quando doente, embora recebesse atendimento de forma precária. A morte do escravo era uma diminuição de patrimônio, um prejuízo para o seu dono.

Libertado, na condição de analfabeto, sem indenização, sem profissão, sem mesmo uma formação psicológica para o exercício da liberdade, razão que reduzia as chances de sobrevivência a não ser partir para a única opção: retornar à Casa Grande para humildemente solicitar trabalho em troca de alimentos. Ficando assim na dependência da vontade do escravocrata que passou a selecionar os melhores. O negro foi tirado da Casa Grande e jogado na favela. Estampado assim, a causa da criminalidade reinante que tanto inflige o nosso meio.

Deve ficar bem clara que a cota não se trata de uma ajuda, uma doação ou um favor dispensado ao negro, mas sim um direito seu! Uma forma de combater em parte a desigualdade reinante neste país. Como bem disse o vice-reitor da UEL, Eduardo Di Mauro, não resolve no todo, mas a soma dos processos de resolução de cada parte um dia atingirá o todo.

Não nos podemos esquecer que a consagração da cota vem proporcionar um crescimento econômico, não só entre a comunidade negra em si, estimada em 50% dos brasileiros, mas com reflexo que atingirá toda a população. Complementando este grande acontecimento vem militar em favor na diminuição da criminalidade que tanto grassa em nosso país.

Na qualidade de advogado da comunidade negra há vários anos lutando em prol da igualdade e contra o preconceito, vanglorio-me com esse acontecimento. Sinto-me aliviado em parte já que entendo que a luta deve continuar para que este tipo de cota seja transformada em lei federal e estendida a todos os níveis educacionais desde a pré-escola até a universidade. Para manutenção do cotista sem condição econômica deverá ser incrementado pelo poder público bolsa escola ou empréstimo à educação, a ser restituído após formado, se possível com seu próprio serviço profissional a juros módicos.

A comunidade negra rende justa homenagem à ilustre reitora Lygia Pupatto, detentora da idéia, bem como todo o Conselho Universitário por esta atitude histórica. Parabéns! A UEL fez jus ao seu foro de cultura escrevendo com pena de ouro uma rememorável página da nossa história.

OSCAR DO NASCIMENTO é advogado do Movimento Negro de Londrina

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