É chegada a hora do debate da qualidade da educação e a igualdade de condições de acesso e permanência na escola. A Universidade Estadual de Londrina (UEL) resolveu estabelecer cotas para afrodescendentes e estudantes de escolas públicas. É cediço que a educação no país vem caindo vertiginosamente em qualidade desde o início da ditadura militar de 1964.
Embora tenhamos no artigo 205 da Constituição a exigência do Estado e da família dar ao educando uma educação ''voltada ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho'', este dever não vem sendo cumprido ante à má qualidade do ensino público fundamental e médio. De outro lado, reforça a qualidade no ''gargalo educacional'' do ensino superior causando verdadeira e desigual disputa pelas vagas nas universidades públicas.
Precisamos debater qual é o interesse público para a nação: queremos formá-la com cidadãos valorosos que, ante a negação do Estado em cumprir o artigo 205 e, por consequência o 206 da Constituição, de forma solidária, exigem que sejam cumpridos; ou com cidadãos que aceitam ''muletas'' discriminatórias (como o sistema de cotas) formando deles uma segunda classe. É preciso cada cidadão, no exercício da cidadania, exigir que o Estado cumpra o seu dever do referido artigo 205. Não o lenitivo do sistema de cotas.
O fato lembra da experiência daquele que a ''título de ajudar uma borboleta em dificuldade em sair do casulo, fez com que ela ficasse deficiente em toda a sua vida, pois não sabia que a natureza impõe o necessário esforço de suas próprias pernas para se livrar daquele casulo, para que possam criar forças a suportar o peso de suas asas''.
Assim se darmos ''muletas'' (cotas) agora, não teremos cidadãos em condições de competir neste sistema mundial capitalista. Já imaginou se o Comitê Olímpico Brasileiro estabelecesse cotas para escolher os representantes brasileiros nas Olimpíadas sob o mesmo argumento? Seria um fracasso no plano mundial.
Em suma, um erro não justifica outro. Se o Estado não cumpre o artigo 205 e, por consequência o inciso I do 206, não podemos ''corrigir distorções'' com outra forma de descumprimento do citado inciso. É preciso fazer valer o artigo 205 e, por consequência o 206 em sua totalidade, inclusive nas escolas particulares, pois queremos uma nação de cidadãos desenvolvidos, preparados para o exercício da cidadania e qualificados para o trabalho para destacar o país no cenário mundial. Não uma nação dividida em classes de cidadãos desenvolvidos e outros ''quase'' desenvolvidos pela falha cometida pelo Estado na base educacional, a necessitar da ''muleta'' das cotas. A igualdade de acesso e permanência na escola se faz com ensino de alta e igual qualidade em todos os níveis e com um sistema de avaliação sério.

GERSON MACHADO é membro da Escola de Cidadania da Paróquia dos Sagrados Corações em Londrina

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