Após séculos de escravidão e quase 120 anos de uma República que não foi alcançada por uma parcela significativa de nossa população, vemos que os negros compõem a maioria da população pobre, dos analfabetos, enfim, dos desvalidos desta nação. Enfrentar com ousadia a questão da inclusão social dos milhões de brasileiros que padecem na indigência é condição para criarmos uma verdadeira nação.
A Universidade de Londrina está discutindo amplamente uma proposta apresentada pela minha administração, de criação de uma cota de 40% das vagas para alunos da escola pública. Deste total, metade seria destinada a estudantes negros da escola pública. No próximo mês o Conselho Universitário, como órgão máximo de deliberação, apreciará a proposta. Tem sido admirável o apoio que estamos recebendo de pessoas e entidades mais sensíveis aos problemas sociais. Porém, algumas críticas têm sido formuladas. Uma característica comum a tais críticas tem sido anunciar que as consequências da medida comprometeriam a qualidade do ensino da UEL.
Constitui imperdoável preconceito pressupor que são incapazes os pobres e os negros. Nossa própria experiência tem demonstrado que o que lhes falta são oportunidades e não capacidade. Os cursos de Pedagogia, História e Matemática da UEL, por exemplo, possuem mais de 70% dos seus matriculados oriundos da escola pública, e foram avaliados com o conceito A pelo ''provão''.
Os tribunais superiores já se pronunciaram pela constitucionalidade das cotas quando apreciaram contestações à implantação de cotas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Portanto, estamos falando de uma iniciativa que é legal e que não prejudicará a instituição que poderá vir a adotá-la. A justiça da medida me parece inquestionável. Para os que apontam que ocorreria diminuição das vagas disponibilizadas para os egressos das escolas particulares, lembro que, em Londrina, nestas escolas estão matriculados 17% dos estudantes do ensino médio. Uma parcela formada por 17% dos matriculados no ensino médio poder disputar 60% das vagas não constitui injustiça!
Neste momento, a maior contribuição que a universidade brasileira está dando para o conjunto da sociedade é provocar o debate sobre o racismo e a intolerância. Embalados pelo mito da democracia racial, convivendo com um racismo discreto mas eficiente, produzimos uma brutal exclusão dos negros. ô preciso refletir sobre o quanto e como esta intolerância impregnou-nos, para nos libertarmos dela.
Em todo o mundo a universidade tem como tarefa formar as elites econômicas, políticas e culturais. Estamos nos propondo a formá-las, porém recrutando não apenas os filhos da própria elite estabelecida, mas também os filhos das parcelas populares. Isto incomoda a alguns que, por intolerância e egoísmo, não conseguem admitir uma sociedade menos excludente.

LYGIA LUMINA PUPATTO é reitora da Universidade Estadual de Londrina

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