ESPAÇO ABERTO - Cotas, a visão dos opositores
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de junho de 2004
Maria Lucilda Santos 
Alguns acreditam que não existe racismo no Brasil, que precisamos melhorar a escola pública, a questão é social e não racial. Contra todos os números que evidenciam o tratamento subumano imposto aos negros, não enxergam a dupla discriminação, por ser negro e pobre. A desmistificação da democracia racial vem reconhecer as diferenças étnicas e raciais, contrariando o credo nacional de que somos um só povo, uma só raça vivendo harmonicamente.
Outros crêem que o racismo no Brasil é leve, com tais discursos: as cotas acirrariam o racismo. Ademais quem é negro no Brasil? Somos miscigenados. Não existe raça. Disseminou-se a crença de que a miscigenação nos irmanou, elevando a mestiçagem a evidência de falta de atrito racial e que no ''moreno'' estaria a síntese brasileira, e por tal não existiria raça, e por conseguinte o racismo. Ignoram que a ausência de reconhecimento ou reconhecimento inadequado é também uma forma de opressão. Temos no Brasil uma forma camuflada, sub-reptícia e sutil de racismo, que inclui e pretere (ao invés de excluir e segregar), mas igualmente maléfica. Num país com tal diversidade e o que queremos é equidade de representação nos bancos universitários.
Para alguns as cotas causariam prejuízo aos brancos, que passariam a ser discriminados. Alegam que a implantação de cotas é inconstitucional. De fato as políticas afirmativas trazem em seu bojo o ideário de alterar o status da atual sociedade, calcado na justiça retribuitiva e reparatória. A erradicação da discriminação é moralmente legítima e juridicamente uma meta pública racional e necessária, sendo que a justiça exige tratamento igual aos iguais e desigual aos desiguais.
E, por fim, temos o grupo para o qual a raça condiciona a capacidade intelectual, e ao indivíduo é atribuída a posição sócio-econômica que ocupa. Dizem, por exemplo, que vai decair a qualidade de ensino superior. Os negros são inaptos para acompanhar o curso universitário. Aqui temos a matriz da política da eugenia (raça pura, branca) representada pela ordem, racionalidade e autocontrole, enquanto os demais grupos raciais seriam vistos como indicadores de caos, irracionalidade, ignorância.
Apesar de condenada, tal conduta está internalizada em nossa sociedade por meio de suas representações racistas, dissimuladas sob forma de argumentos legais e morais, cujo único objetivo é cercear o direito à igualdade de oportunidade e justiça social.
MARIA LUCILDA SANTOS é presidente Associação Afro-Brasileira de Londrina, secretária do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina e integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Londrina


