Os novos contextos de vulnerabilidade social têm emergido e aparecem na teia complexa do cotidiano traduzida no enfraquecimento das instituições básicas da sociedade, tais como o Estado, a família e a escola, como expõe a reportagem ''A violência que explode nas escolas'' (Folha Cidades, pág. 3, 20/04). De fato, o quadro que se apresenta nas escolas reflete os conflitos de diversas naturezas, violência, desrespeito às figuras de autoridade, intolerância, etc.

Como se tem apontado, é preciso uma nova escola para acolher as novas gerações, um outro conceito espacial, arquitetônico no sentido de logística incluindo as novas tecnologias; os recursos humanos que vai desde a formação do professor, funcionários, perpassando pela rede interdisciplinar e intersetorial envolvidas com questões de violência urbana. As diversas pastas voltadas para o desenvolvimento devem pensar os projetos e os recursos de forma sistêmica para não duplicar ações para o mesmo fim. Assim, a Secretaria de Educação, quer seja municipal ou estadual, deve dialogar e estruturar políticas públicas educacionais voltadas para a perspectva da ''cidade educacadora', pois, atualmente todos os espaços da cidade podem ser entendidos como espaços de aprendizagem. Cidadania não se ensina por conceito, mas antes por vivências cotidianas, nos mais diversos contextos. Portanto, o trânsito pelos diferentes contextos da cidade, vivenciados pelos estudantes, nessa perspectiva, são considerados conteúdos. E proporcionar o trânsito requer deslocamentos de várias naturezas. Trata-se de outro modo de organizar o conhecimento a ser transmitido e produzido.

Nesse sentido, pode-se destacar que experiências ocorridas em comunidades que tiveram oportunidades de acesso a bens culturais e artísticos contemplando-se a diversidade cultural e puderam, em certa medida, ampliar a consciência dos seus direitos do exercício pleno da cidadania, o fortalecimento da autoridade dos adultos envolvidos no processo educativo, bem como os laços de afeto, comunicação, cuidado e proteção das famílias participantes. Construir pontes entre a escola e comunidade é uma urgência que requer quebra de paradigmas do que é conteúdo curricular, do poder do professor (que hoje se sente ameaçado em vários níveis), do papel da escola naquela comunidade.

Temos iniciativas interessantes como, por exemplo, o programa Escola Aberta, que ''busca repensar a instituição escolar como espaço alternativo para o desenvolvimento de atividades de formação, cultura, esporte e lazer para os alunos da educação básica das escolas públicas e suas comunidades nos finais de semana''. O discurso é maravilhoso, mas na prática, a escola não tem atrativo nenhum para abrir final de semana. Como atrair os pais, jovens, crianças, professores, sem uma mínima estrutura para acolher a comunidade? Assim, boas ideias e programas se afogam no descrédito ou são natimortos.

Como educadora musical, tenho pesquisado e me envolvido com a relação ao acesso a bens artístico-culturais e nível de violência infanto-juvenil. Tanto a experiência empírica como os resultados das pesquisas que venho desenvolvendo no ambiente escolar e práticas musicais revelam que, se criarmos condições dignas para a vivências de processos criativos, artísticos, podemos agregar a comunidade à cultura escolar; podemos enriquecer o projeto pedagógico da escola e impactarmos, para melhor, o nível das relações humanas, da autoestima e da autoconfiança de uma comunidade, mas é preciso estratégia pedagógica, recursos financeiros, recursos humanos e uma atenta observação dos contextos movediços e que se desvelam quando estamos, de fato, envolvidos. Então, talvez, poderemos tratar, com profundidade, as questões que envolvem a violência escolar, pois ela está para além dos muros da escola, como destaca a reportagem. Também é preciso agilidade nas políticas e ações para conter essa ferida aberta que se apresenta tão dolorida e mortal para toda a sociedade.

MAGALI KLEBER é presidente da Associação Brasileira de Educação Musical e educadora em Londrina

■ Os artigos devem ter, no máximo, 60 linhas e mínimo de 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup