Com o fim do segundo turno das eleições municipais, os jornais estão repletos de análises sobre o que ocorreu e previsões para as eleições de 2022. É claro que, partindo de uma imprensa progressista e notoriamente hostil ao governo Bolsonaro, muito do que se publica não são reflexões isentas, mas sim conteúdo conveniente para o objetivo previamente definido de enfraquecer e derrotar o presidente.

Apesar dessa constatação, não vou cair no erro dos petistas que, mesmo diante de um desempenho eleitoral obviamente humilhante, insistem numa postura prepotente alimentada por seu maior líder, o primeiro presidente do Brasil a ser condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. O PT teve tudo o que um partido pode ter, por anos, mas agora definha.

Nós, conservadores, estamos numa situação bastante distinta. Sem dinheiro, sem tempo de TV e sem alianças políticas relevantes, Jair Bolsonaro provocou um terremoto na política em 2018. Contando só com o apoio popular, manifestado nas ruas e nas redes sociais, ele derrubou gigantes. Com sua influência, provocou a maior renovação do Congresso Nacional nos últimos vinte anos e deu voz às pautas de costumes que sempre foram as do povo, mas nunca encontraram espaço num debate político monopolizado por fisiológicos e socialistas.

Foi incrível e histórico, mas todos os envolvidos sabem que a ascensão dos conservadores ao poder pulou muitas etapas. Alcançamos o topo, sem ter uma base sólida e organizada. Essa é a realidade que explica muito do que ocorreu nos últimos dois anos, desde as desilusões com quem surfou na onda do bolsonarismo sem nunca ter sido conservador de fato, até a consequência mais recente, as eleições municipais.

Ao fazer essa afirmação, ressalto que discordo veementemente da tese de que as pautas conservadoras é que perderam força. Uma boa evidência disso é a já citada inanição da esquerda nesse pleito. O que ocorreu tem a ver é com a desorganização na qual estamos. Temos políticos conservadores, mas eles estão divididos em quase uma dezena de partidos. Esse é um problema grave, ao qual toda a direita política devia dar mais atenção. A política no Brasil é partidária e todas as regras do jogo eleitoral foram construídas para atender a uma realidade partidária. É por isso que precisamos, com urgência, nos unir numa sigla que nos dê força de conjunto. Sem isso, sempre lutaremos em desvantagem contra os outros espectros políticos, pois, ao contrário deles, diluímos a força que poderíamos ter. Isso confunde o eleitor e dissipa o voto, provocando prejuízo especialmente nas eleições proporcionais, como as de vereadores e deputados.

Por falar em eleições proporcionais, considero crucial retomar o debate sobre uma reforma política que estabeleça o mais justo de todos os sistemas, o chamado “distritão”, no qual vence o mais votado, sem a necessidade de cálculos incompreensíveis à maior parte da população, e sem favorecer quem recebe pouquíssimos votos, mas acaba sendo arrastado para a vitória, sem mérito, na garupa de algum colega de legenda mais bem sucedido.

Há ainda outro fator que foi determinante para o resultado das urnas em 2020, e que até agora não foi devidamente notado pela imprensa. Os partidos que mais conquistaram prefeituras foram aqueles que mais receberam emendas parlamentares extras, ou seja, recursos provenientes do governo federal que vão além das emendas impositivas, e que chegam aos municípios por meio dos deputados, quase sempre para o custeio de obras públicas e maquinário. Quando se compara a lista dos partidos mais prestigiados por esse tipo de emenda e a lista dos que mais levaram prefeituras, a correlação é evidente.

É claro que esse tipo de recurso sempre traz prestígio local ao político que aparece como financiador da obra. O prestígio se converte em votos e aí está a fórmula, antiga e eficaz, usada sobretudo pelos candidatos que dizem não ter ideologia. É inevitável questionar se o órgão responsável por negociar tais emendas, a Secretaria de Governo, comandada pelo ministro Ramos, não teria privilegiado propositalmente os candidatos de centro, em detrimento daqueles de direita.

Por fim, é necessário admitir que os conservadores brasileiros precisam melhorar seu trabalho de base, aperfeiçoando, sobretudo, a maneira como comunicam suas convicções em contexto municipal. Os temas morais e de liberdade, tão caros a nós, jamais devem ser abandonados, mas precisam encontrar lugar no cotidiano do cidadão comum, nos problemas concretos das cidades, em linguagem adequada, inclusive, ao povo mais simples.

O debate, da mesma forma, não pode se restringir às arenas virtuais das lives e das redes sociais. Por mais úteis que esses meios sejam para divulgar nossas ideias, não podemos abandonar uma parte da população que é numerosa, cheia de necessidades a serem atendidas e que não tem contato com esse mundo digital, seja por desinteresse ou por falta de acesso. O velho corpo a corpo, as visitas presenciais aos bairros e as conversas com comerciantes nunca podem ser substituídas por ações exclusivamente virtuais. A direita pode e deve se esforçar mais em suas campanhas de rua e, nesse ponto, o presidente Bolsonaro é um grande exemplo de como se fazer isso. Ele nunca se esquivou das multidões que lutam por espaço para vê-lo, e é por isso que tanta gente, de tantas classes sociais diferentes, se identifica com ele.

O conservadorismo está tão vivo quanto sempre esteve. Não é nossa essência que precisa ser mudada, mas as urnas mostraram que é possível ajustar a forma como a transmitimos e o contexto no qual lutamos.

Filipe Barros, deputado federal

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