O Concílio Vaticano 2º (1962-1965) foi um Pentecostes, um prodígio, uma reviravolta, uma graça incomensurável, uma bússola, uma festa, o fim de estruturas ultrapassadas, mas, principalmente uma feliz surpresa. Eis as dez palavras que configuram o Concílio:
Primeira: Aggionarmento. Quer dizer, atualização, ares novos, superação de atrasos, erros, equívocos e busca de melhor linguagem, melhor método, melhor formulação da verdade. Uma profunda reformulação da doutrina, da prática e da instituição eclesial.
Segunda: Pastoral. Primeiro enfoque do Concílio é o agir da Igreja, sua missão evangelizadora. Não se quer dar definições doutrinais, condenações, nem resolver controvérsias dogmáticas, mas organizar e implantar a dimensão pastoral que é o agir, a prática, a transformação da realidade para a salvação do mundo.
Terceira: Ecumenismo. Abrir-se ao dialogo, à comunhão, à unidade dos cristãos é um eixo transversal do Concílio. ''A reintegração da unidade entre os cristãos, é um dos objetivos principais do Sagrado Sínodo Ecumênico Vaticano Segundo''. Assim começa o documento conciliar sobre a unidade dos cristãos.
Quarta: Diálogo. Sim, antes de tudo o diálogo dentro da Igreja, o diálogo com o mundo, especialmente a modernidade e o diálogo com as religiões não cristãs. O diálogo é um gesto de abertura, de saída de si e acolhimento do outro. No lugar dos dogmatismos e condenações, o Concílio optou pelo diálogo, o encontro, a compreensão do outro.
Quinta: O mundo. Aqui evidencia-se a consciência da dimensão social da Igreja. Dialogar com o mundo, compreendê-lo e aprender com ele. Assim diz o Concílio: ''A Igreja confessa que progrediu muito e pode progredir com a própria oposição dos seus adversários ou perseguidores'' (GS 44). Assim, ''as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo'' (Idem, nº 1).
Sexta: O homem. O Concílio debruçou-se sobre a dignidade humana, os direitos humanos, as culturas, a arte, a ciência, os meios de comunicação, a educação, a justiça, o bem comum. Portanto, sobre a vida e as condições básicas da vida humana.
Sétima: O povo de Deus. A promoção do leigo, a participação dos fiéis na vida da Igreja, a corresponsabilidade, a colegialidade dos bispos, a reforma litúrgica, a espiritualidade de comunhão, o sínodo, a igual dignidade dos cristãos, o sacerdócio batismal, o senso dos fiéis, o reino de Deus, a Igreja dos pobres são alguns aspectos da Igreja - povo de Deus que tem sua fonte e inspiração na Santíssima Trindade.
Oitava: O primado da Palavra. Esta é uma das chaves principais do Concílio. Na celebração de abertura na Basílica de São Pedro, a Palavra foi solenemente entronizada e permaneceu na estante até ao final do Concílio. Após um exílio secular e o trauma entre a Igreja Católica e a Reforma Protestante, o Concílio decide pela primazia, centralidade, redescoberta da Palavra.
Nona: A liberdade. Foi defendida a liberdade de consciência, a liberdade religiosa, a democracia, a superação do ritualismo litúrgico, a importância do presbitério, a socialização, a comunidade internacional, a autonomia das realidades terrestres, o fim da escravidão, os direitos dos povos, o direito à propriedade, a condenação da guerra.
Décima: A missão. Toda vocação é para a missão. Leigos, religiosos, religiosas, diáconos, presbíteros, bispos, devem ter uma consciência missionária. A Igreja completa a obra salvífica de Cristo através da atividade missionária. Uma Igreja que não é missionária, não é a Igreja de Cristo. A Igreja é mistério, comunhão e missão.
Com estas dez palavras não conseguimos dizer tudo o que foi o Concílio Vaticano, temos apenas uma aproximação, uma fisionomia, uma indicação, deste grande evento eclesial.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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