ESPAÇO ABERTO - Compay Segundo e a música cubana
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de julho de 2003
Paulo Henrique Martinez 
A longevidade e o vozeirão grave. Sorriso e simpatia, chapéu e charuto. Estas foram as marcas que o cantor e compositor cubano Francisco Repilado, o Compay Segundo, deixou na lembrança de todos que ouviram o CD e assistiram ao filme Buena Vista Social Club. Falecido aos 95 anos de idade, tornou-se um emblema da música cubana. Somente na década de 1990 alcançou o público e o mercado internacional.
O instrumentista e produtor norte-americano Ry Cooder promoveu, em 1996, um encontro de importantes nomes da música da ilha, lá mesmo, em Cuba. O resultado foi o CD Buena Vista Social Club, que rendeu notoriedade mundial aos participantes. Entre eles, Compay Segundo. Em 1999, o diretor alemão Wim Wenders levou Buena Vista para as telas de cinema. Os músicos veteranos e as canções correram mundo e encantaram platéias.
Compay Segundo conheceu a fama internacional tardiamente. Quais os motivos desse sucesso? Sua carreira realizou-se nas décadas de 1940 e 1950, com destacada presença em rádios e gravadoras. Estabelecido em Havana desde 1934, ganhou celebridade, a partir de 1942, como Compay Segundo. Era a segunda voz do dueto Los compadres. Entre 1960 e 1970, desapareceu do cenário musical, quando a indústria cultural rejeitou a revolução cubana e pasteurizou ritmos caribenhos com a salsa. Compay sobreviveu trabalhando em uma indústria de charutos, sem nunca abandonar a música.
O início da carreira musical foi em Santiago de Cuba, na parte oriental da ilha. Consagrou-se como compositor e instrumentista, tocando guitarra, clarineta e tres, uma guitarra modificada, responsável pelo dedilhado em execuções do son. O son é uma música sincrética, africana e espanhola, vocal e com vários instrumentos, originalmente feita para dançar. No fim do século XIX, era expressão do lazer popular e custou a penetrar os ouvidos e salões das classes média e alta de Havana. Isto aconteceria a partir da década de 1930. O trio Matamoros foi o maior expoente do son cubano. Não é casual que seus integrantes tivessem tocado na banda municipal de Santiago, juntamente com Compay.
Estes são dados importantes para compreender o sucesso internacional de Compay Segundo e também de Buena Vista Social Club. A porção oriental da ilha abrigou uma sociedade camponesa, produtora de tabaco, fortemente rural e hispanizada. Diferentemente da porção centro-ocidental da ilha, onde está Havana. Ali, a sociedade foi moldada pelo açúcar, o trabalho escravo, produção para o exterior, EUA e Europa, vida urbanizada e cosmopolita. Consagrou ritmos de salão como o danzón, o mambo e o chá-chá-chá.
Na década de 1990, a indústria cultural explorou o apelo comercial das comunidades tradicionais. Diante da massificação e homogeneização acelerada das economias, aquelas podiam oferecer produtos diferenciados. Em 1994, Compay Segundo participou de um encontro de son e flamenco, na Espanha. Abriu-se o caminho do sucesso junto ao público europeu. A música guajira, camponesa, de Cuba encontrou o mercado de massas. Na mesma época, o fim da URSS e a crise de financiamento do Estado cubano, levaram o país a buscar maior inserção no mercado mundial. Além do açúcar, turismo, charutos, rum, praias, calor tropical e, claro, música típica, foram valiosas fontes de receita.
O espírito do tempo que animou a valorização dos longevos músicos cubanos transcendeu espaços culturais. Em 1995, impeliu o legendário historiador Manuel Moreno Fraginals, a escrever uma ''história comum'' de Cuba e Espanha, para além da exploração colonial. Os hábitos culturais, familiares e sociais foram postos em relevo, alimentando uma nova identidade coletiva, agora hispânica e europeizada. Talentos artísticos, como o de Compay Segundo, puderam, então, florescer novamente, rejuvenescendo a todos.
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor no departamento de História da Unesp em Assis (SP)


