ESPAÇO ABERTO - Com os mestres, sem surpresas
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quinta-feira, 04 de dezembro de 2003
Walmor Macarini 
Para Yamandu, tocar violão como ele toca, é fácil. Se eu fosse Yamandu, claro, tocaria igual. Mas me basta o privilégio de vê-lo e ouvi-lo. Onde há violonistas, eu os encontro. Certamente que não por acaso, porque aquilo em que nos ligamos, nos sucede.
Certa vez eu estava em Tóquio, num daqueles pequenos restaurantes da Ginza, e vejo um japonês alto, cabelos abundantes e grisalhos, e achei-o diferente dos demais. Tinha um ar místico. Eu o fitava. Só depois percebi, ao seu lado, um violão, numa caixa. Ele era violonista.
Voltando ao Brasil duas semanas depois, vejo no aeroporto de Narita o mesmo japonês. Com seu violão. No embarque, percebo-o em nosso vôo. Em Los Angeles (primeira escala) descemos. Ele também, e resolvi segui-lo, discretamente, dentro da estação de passageiros. Ele se aloja num canto, tira da caixa o violão e começa a ensaiar. Percebi logo que se tratava de um mestre. Fiquei por perto, escutando aquele recital exclusivo.
Os passageiros rumo ao Brasil embarcam, e lá está ele, junto. Em São Paulo perco-o de vista. Dois dias depois, já em Londrina, recebo convite para uma viagem a Assunção. Lá chegando, sou despertado pela foto do violonista, num jornal, anunciando a apresentação dele lá, e então descubro que se trata de um famoso instrumentista.
Ninguém do meu grupo havia notado, desde Tóquio, a presença daquela figura. Só eu. Porque nos ligamos naquilo que nos interessa, e aquilo que nos interessa nos acompanha e costuma ocorrer.
Em outra ocasião estou em Porto Alegre, corro os olhos pelo jornal, como costumo fazer aonde chego, e vejo anunciado o show de outro bamba, tido por mim, até então, como o maior violonista da atualidade: Paco de Lucia. (Hoje sei que Yamandu o supera, a nos ensinar que nunca sabemos onde reside o máximo). Fui correndo para o local, a tempo de adquirir, no meio da tarde, o que era o último ingresso disponível.
Tempos depois eu estava sem saber o que fazer, num hotel de Curitiba, e - de novo - vejo repentinamente no jornal a nota anunciando quem, senão Paco de Lucia!? Saio correndo para o show e chego em tempo.
Na última terça-feira, em Londrina, fui ver (de novo) Yamandu, esse menino gaúcho de pouco mais de 20 anos, que assombra pela sua habilidade e criatividade ao violão. Penso-o a encarnação de um coletânea de mestres violonistas. Ou que Yamandu é a alma do violão, ou o inverso, ou ambos uma só substância.
Pena que esqueceram de ligar o ar do Teatro Ouro Verde e de instalar microfones para amplificar o som dos instrumentos da magistral Orquestra Solistas de Londrina. O calor distende as cordas dos instrumentos e os desafina. Yamandu e o maestro enxugavam o suor e a platéia abanava-se com o programa impresso do recital. Foi também um espetáculo de abanação.
De qualquer forma, a apresentação do violonista foi fantástica. Ou foi simplesmente algo natural. Porque quando se está diante de mestres, não há surpresas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


