As pessoas às vezes se queixam diante um serviço por fazer, mas deveriam agradecer pelo privilégio de serem possuidoras das mãos que o façam. Porque há quem não as têm ou não podem usá-las plenamente, por alguma deficiência.
Quem escreve às vezes se aborrece ante um longo trabalho por redigir, mas deveria agradecer pela graça de possuir a capacidade para essa tarefa. O que é chamado para indicar um caminho, em muitos casos demonstra má vontade, mas deveria ser grato pela condição de poder ser guia, e não guiado.
Quando alguém nos pede uma ajuda, por extrema necessidade, nem sempre atendemos, ou o fazemos a contragosto, mas ainda é melhor estar na condição de poder dar do que na de pedir, e devemos atentar para isso.
O mestre que ensina às vezes reclama dessa árdua tarefa diária, ademais com baixo ganho, mas há que louvar pelo sublime dom de saber ensinar. O estudante vive continuamente aborrecido pela obrigação de ir à escola, mas deveria agradecer pela oportunidade de ser jovem, de poder locomover-se, de ter condição de estudar, consciente de que alguém está investindo no seu futuro. Porque há muitos que não têm esse benefício.
Quem edifica a obra sofre pela dureza do trabalho, mas deveria agradecer por possuir a força física e estar apto para a incumbência, porque há muitos que não possuem esse emprego e nem a necessária saúde para isso.
O que cultiva a terra declara-se, tantas vezes, um sacrificado, mas deveria ser grato por possuir o seu quinhão e conhecer a arte de semear e colher, porque há tantos que gostariam de fazer o mesmo, mas, por alguma razão, não o podem.
A doméstica que coze a comida e limpa a casa costuma sentir-se inferior, mas deveria ser grata pela competência de que é dotada, e pelo emprego. E a patroa, que em muitas ocasiões se queixa de ter de pagar essa serviçal e do que ela consome, deveria ser grata pelo trabalho dela e imaginar como seria sem ela.
Sem as pessoas que executam as tarefas mais rústicas como a doméstica, o lixeiro, o desentupidor de esgotos, o carregador de pesos, o que faz serviços arriscados o mundo seria o caos.
O que trabalha nos hospitais sabe que é melhor ser o atendente que o paciente. A mãe que às vezes se exausta com os filhos pequenos e com o trabalho que lhe dão os filhos adultos geralmente rebeldes e pouco agradecidos deveria reverenciar a graça de tê-los, porque tantas o desejam e não conseguem.
Pessoas repletas de abundâncias e luxos e que, no entanto, vivem insatisfeitas, deveriam agradecer pela vida que têm, porque um numeroso contingente de cidadãos passa por grandes necessidades e vive já sem esperanças.
Nada impede que se lute por melhoria de vida, porque este é um ideal humano, mas não há que olhar apenas para a frente e nem deixar de avançar por causa dos que estão atrás porque é verdade que aquele que ousa, semeia progresso e promove a riqueza, beneficiando a muitos mas há que olhar para todos os lados, com a visão bem aberta e com responsabilidade, atento à realidade das coisas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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